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Araújo condena invasão do Capitólio, mas questiona processo eleitoral nos EUA; especialistas criticam

Em rede social, chanceler brasileiro defendeu investigar participação de infiltrados . Invasão ocorreu após discurso de Trump e foi tentativa de barrar a certificação da vitória de Biden.

 

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, condenou nesta quinta-feira (7) a invasão ao prédio do Capitólio, sede do Congresso dos Estados Unidos, por apoiadores do presidente Donald Trump e as quatro mortes que ocorreram durante a confusão.

Araújo, porém, defendeu que seja investigada a possível participação de “elementos infiltrados” entre os milhares de apoiadores de Trump que estiveram em Washington para protestar contra a ratificação da vitória do democrata Joe Biden nas eleições presidenciais do ano passado.

O chanceler brasileiro também defendeu o protesto de apoiadores de Trump e afirmou que "duvidar da idoneidade de um processo eleitoral não significa rejeitar a democracia (leia mais abaixo).

Segundo especialistas ouvidos pelo G1 e pela TV Globo, as mensagens de Araújo fogem ao tom convencional da diplomacia brasileira e invadem questões internas dos Estados Unidos, como a legitimidade do processo eleitoral (veja abaixo).

Momentos antes da invasão, Trump discursou para seus apoiadores e voltou a afirmar, sem apresentar provas, que a eleição de que saiu derrotado foi fraudada. O presidente também afirmou que não aceitaria o resultado dela.

"Há que lamentar e condenar a invasão da sede do Congresso ocorrida nos EUA ontem. Há que investigar se houve participação de elementos infiltrados na invasão. Há que deplorar e investigar a morte de 4 pessoas incluindo uma manifestante atingida por um tiro dentro do Congresso", afirmou Araújo em uma rede social.

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Mais cedo nesta quinta, o presidente Jair Bolsonaro, em conversa com apoiadores em Brasília, insistiu em dizer, sem apresentar provas, que houve fraude nas eleições norte-americanas. Bolsonaro e Araújo são aliados de Trump.

Políticos norte-americanos, inclusive aliados de Trump, além de líderes de outros países, condenaram a invasão ao capitólio. O presidente norte-americano teve suas contas em redes sociais bloqueadas por tempo indeterminado.

'Cidadãos de bem'

Segundo Araújo, é preciso reconhecer que “grande parte do povo americano se sente agredida e traída por sua classe política e desconfia do processo eleitoral”. Para ele, ao colocar em dúvida o resultado das eleições presidenciais, os apoiadores de Trump não atacam a democracia norte-americana.

“Há que distinguir 'processo eleitoral' e 'democracia'. Duvidar da idoneidade de um processo eleitoral não significa rejeitar a democracia. Ao contrário, uma democracia saudável requer, como condição essencial, a confiança da população na idoneidade do processo eleitoral”, escreveu o chanceler.

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Araújo também escreveu que é preciso parar de chamar de fascista “cidadãos de bem quando se manifestam contra elementos do sistema político ou integrantes das instituições”.

Segundo o chanceler, “deslegitimar o povo na rua e nas redes” serve para manter “estruturas de poder não democráticas e seus circuitos de interesse”.

“Nada justifica uma invasão como a ocorrida ontem. Mas ao mesmo tempo nada justifica, numa democracia, o desrespeito ao povo por parte das instituições ou daqueles que as controlam”, argumentou.

Especialistas criticam tom de Araújo

Especialistas em política internacional ouvidos pelo G1 nesta quinta apontaram problemas nas mensagens publicadas por Ernesto Araújo.

Ex-ministro de Relações Exteriores nos governos Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, o cientista político Celso Lafer afirma que Araújo parece "comprar" a versão de apoiadores de Trump sobre supostas fraudes eleitorais – um assunto que não cabe à política externa brasileira.

"O comentário do chanceler é, não só altamente inadequado, mas uma interferência desassisada [desatinada] em assuntos internos de outro país. Para variar, o governo rema contra a maré. Rema contra declarações de estadistas do mundo inteiro, contra manifestações de ex-presidentes dos Estados Unidos, inclusive republicanos", afirma Lafer.

"O chanceler Ernesto Araújo aprecia a ideia de ver o Brasil como um pária internacional, e está dando mais uma contribuição nesse sentido", prossegue.

O ex-ministro diz que as declarações de Araújo são um "tiro no pé" da diplomacia brasileira, porque insistem em abrir confronto com o recém-eleito governo Biden, com quem o país terá de negociar nos próximos anos.

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"A tarefa da política externa é traduzir as necessidades internas do país em possibilidades externas. O que o governo Bolsonaro faz é, continuamente, diminuir nossas possibilidades internas. Inclusive, as possibilidades relacionadas ao mundo como está hoje, em meio à pandemia e às suas dificuldades", cita Lafer.

"Isso contribui para enfraquecer a posição internacional do Brasil, compromete um capital diplomático acumulado por décadas. Como ex-ministro, é extremamente doloroso [de acompanhar]. O que se requer de um ministro de Relações Exteriores é a capacidade de orientar-se no mundo, levando em conta os interesses de seu país. E naturalmente, pensando na dinâmica da ordem mundial", afirma.

O ex-embaixador do Brasil na Argentina José Botafogo avalia que não faz sentido a separação feita por Araújo entre processo eleitoral e democracia. “As eleições são o instrumento que a democracia criou para garantir a alternância de poder. É impossível achar que a democracia está preservada, mas o sistema eleitoral não”, disse.

Para Botafogo, o chanceler apenas se posicionou publicamente para evitar constrangimentos. "O chanceler não podia deixar de criticar a invasão, mas criticou de uma maneira que explicou o inexplicável, dizendo que dava para entender a desconfiança por parte dos invasores sobre a eleição de Biden", criticou Botafogo.

Necessidade de pragmatismo

Maurício Santoro, professor de relações internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), classifica a manifestação de Ernesto Araújo como “preocupante” e afirma que a invasão ao Congresso norte-americano deveria ser condenada “sem hesitação”.

Condenada como uma ameaça à democracia, como um ataque às instituições. Até há uma frase protocolar na declaração do ministro, dizendo que é inaceitável, mas o resto da declaração é basicamente o ministro expressando a sua simpatia com os extremistas que atacaram o congresso e negando, ou minimizando, o risco que representam para a democracia e o autoritarismo naquela ideologia, maneira de agir, naquele modo de ocupar o espaço público", afirma o professor.

"Será que o ministro Araújo consideraria algo semelhante 'aceitável' no Brasil, na medida em que o Trump é o grande modelo político do Bolsonaro? Assim como Trump, Bolsonaro também tem alegado fraude nas eleições", acrescentou Santoro.

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Cientista político e professor de relações internacionais da Universidade São Judas Tadeu, Rodrigo Gallo afirma que o "bom tom" esperado do Ministério de Relações Exteriores, neste momento, seria optar por uma nota sóbria, sem condenar, incentivar ou endossar teorias ainda não provadas.

"É muito perigoso que o nosso ministro cite essa desconfiança do processo eleitoral. Nem o próprio vice do Trump [Mike Pence] endossou isso. É claro que, se houver suspeita de fraude, isso deve ser averiguado, mas com responsabilidade. Parte dos apoiadores do Trump vem sustentando essa ideia sem lastro, e é muito complicado o chanceler brasileiro reproduzir, mesmo que parcialmente, essa posição", afirma Gallo.

O cientista político aponta, ainda, que os impactos negativos de uma posição isolada do Brasil em relação ao tema – ao ecoar dúvidas sobre a legitimidade da eleição norte-americana, por exemplo – ultrapassam a própria relação Brasil-EUA.

"A gente não pode esquecer que o sistema internacional funciona em interdependência. A relação entre os países A e B não afeta apenas A e B, mas as relações com os países C, D etc. O problema é muito mais grave do que parece", diz.

"Isso não significa dizer que o país não possa ter uma posição. A questão é como cada país faz seu posicionamento. Os países condenam a violência, mas não há uma adjetivação sobre quem é certo, quem é errado. Os países não entram nessas questões, e é por isso que a diplomacia é uma área técnica", pontua Gallo.

O professor aponta ainda uma "falta de pragmatismo" do governo Jair Bolsonaro ao desestabilizar as relações com os Estados Unidos, um dos principais parceiros comerciais brasileiros, por razões ideológicas. O que, cita Gallo, também já foi feito com os outros integrantes do "top 3", China e Argentina.

"Já nos indispusemos com a China, mesmo agora na questão do coronavírus. Já nos indispusemos com a Argentina, inclusive em questões eleitorais, quando o presidente chegou a comentar que a Argentina tinha feito a escolha errada. Não acho que Washington vá romper relações diplomáticas com o Brasil, mas é possível que surjam barreiras", avalia.

Gallo pondera que a função da diplomacia brasileira seria, justamente, a de garantir a estabilidade das relações políticas e comerciais com esses parceiros, independentemente da ideologia dos governos. Esse pragmatismo, diz, faz parte da tradição diplomática do Brasil.

"A gente costuma dizer que política externa é assunto de Estado, e não de governo. Isso quer dizer que ela diz respeito aos objetivos de longo prazo do país, que deveriam permanecer inalterados. O que muda a cada governo são as estratégias, e não os objetivos", explica.

"Assim que o regime militar foi instaurado, por exemplo, o novo governo justificava as mudanças por um alegado risco de 'sovietização' do Brasil. Isso não impediu que o [general] Castello Branco, primeiro presidente militar, enviasse uma delegação a Moscou para estreitar relações com a União Soviética", cita Gallo, como exemplo do pragmatismo que estaria faltando ao governo Bolsonaro.

 

 

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