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Nos 30 anos da MTV Brasil, VJs e executivos falam de legado: '''Tem um pouco de MTV em cada lugar'''

Podcast discute como primeira fase do canal 1990-2013 influenciou a cultura pop no Brasil. Relembre primeiros anos e ouça histórias marcantes contadas pelos VJs.

 

Um canal focado em música e voltado para os jovens com uma pegada que não existia na televisão brasileira. Foi com esse propósito que a MTV estreou em 20 de outubro de 1990.

Horas de transmissão de clipes, programas inusitados, apresentadores jovens e, na maioria das vezes, inexperientes, e muita liberdade de sugerir e executar novas ideias.

Trinta anos depois da estreia, o G1 Ouviu analisa o legado e a influência dos anos iniciais MTV na cultura pop do Brasil e relembra histórias inesquecíveis de VJs. Ouça podcast acima.

Para Cris Lobo, ex-diretora de produção e programação do canal, a palavra experimentar era uma das coisas mais interessantes na MTV:

"A gente adorava isso de 'It's not a normal TV', não é uma TV normal. O que você vê em outras TVs já estão lá naquelas TVs de grande audiência, então a gente tem que fazer uma coisa diferente".

"Isso estava no DNA, na lista do que era para você fazer experimentar não era criticado, isso era uma delícia", completa ela.

A personalidade dos apresentadores também era um fator que criava proximidade com o público.

"Todo mundo tinha um briefing muito simples da MTV que era: seja você mesmo. Não tem personagem", diz Zeca Camargo, que foi apresentador e diretor de jornalismo do canal nos quatro anos iniciais.

"A gente tinha a possibilidade de ser quem a gente era, quem a gente é até hoje. Não tinha seja o bonzinho, seja mal humorado, seja o malucão. O próprio Thunderbird era daquele jeito, não tinha isso de construir um personagem maluco", completa.

Mercado do clipe

Com uma programação para preencher em um momento que a indústria de clipes no Brasil estava nos primeiros passos, a MTV foi peça importante para estimular a produção audiovisual das bandas.

Anna Butler entrou para trabalhar no departamento artístico em dezembro de 1990 e lembra como foi esse momento inicial.

"Era uma loucura. Tanto que foi feito uma negociação que a cada 15 clipes internacionais que fossem aceitos pela MTV pra gente passar, a MTV produziria um para começar o interesse e o desenvolvimento do clipe nacional", diz Anna.

O investimento por parte da MTV não se repetiu em muitos clipes, porque não era um modelo sustentável para o canal e porque logo as gravadoras passaram a incorporar esse formato na divulgação dos produtos.

Apesar do crédito pela primeira transmissão ir para Astrid Fontenelle, quem anunciou o primeiro clipe da história da MTV Brasil foi a VJ Cuca Lazarotto.

Era uma versão descontruída e moderna de "Garota de Ipanema", na voz da Marina Lima. Coube a VJ também a missão de chamar o último clipe daquela fase da MTV, que terminou em setembro de 2013.

A música escolhida foi "Maracatu Atômico", do Nação Zumbi. "Fui gravar bastante emocionada, porque a MTV já estava sendo desmontada e mais que tudo assistir a MTV saindo do ar foi muito impactante", lembra Cuca da última transmissão em setembro de 2013.

Programa de maior audiência

O forte da MTV eram os clipes e, consequentemente, o programa de maior audiência era o Disk MTV. Ele teve várias apresentadoras como Astrid Fontenelle, Cuca Lazarotto, Sabrina Parlatore, Carla Lamarca e Sarah Oliveira.

Sabrina apresentou o Disk entre 1996 e 2000 e destacou o programa com a participação de Christina Aguilera como um dos mais marcantes.

Sabrina Parlatore recebeu Christina Aguilera no 'Disk MTV' — Foto: Reprodução/YouTube

"Imagina, receber uma estrela daquele tamanho ao vivo ali no estúdio foi algo realmente importante e grande. A porta da MTV parecia assim um mar de gente com os fãs da Aguilera", afirmou sobre a entrevista feita em 2000.

O programa contava com a interação com os telespectadores que ligavam para pedir os clipes preferidos, mas o resultado final não dependia só disso, segundo Zico Goes.

"Não era democrático. A gente dava a chance das pessoas opinarem em qual clipe que elas queriam em primeiro lugar, mas se fosse 100% fiel ao que a audiência falava, você criava um viés. Quem ligava era 1% da audiência", lembra o ex-diretor de programação e produção até 2013 do canal.

Sucesso do Acústico MTV

O formato foi um dos mais bem sucedidos da primeira fase da MTV no Brasil. Foram 13 milhões de discos vendidos de artistas como Kid Abelha, Cássia Eller, Gilberto Gil, Rita Lee e muitos outros.

No início, o canal fazia um Acústico por ano, mas o teto era quatro até para dar tempo de produzir tudo, segundo Cris Lobo.

Cássia Eller no Acústico MTV (2001) — Foto: Reprodução/YouTube

"No começo a gente pedia, depois a gente escolhia, mas em geral tudo que a gente quis, a gente fez", diz a executiva que destaca o Acústico da Cássia Eller como grande realização do canal.

"Uma coisa é fazer o Acústico dos Titãs e ser bem sucedido. O Titãs já era uma banda conhecida. Outra coisa foi a gente apostar na Cássia ou no Capital Inicial, que estavam num momento também meio mais por baixo da carreira", diz.

"Foi muito legal tanto para ela quanto para a gente, porque daí virou uma coisa de: 'a MTV sabe escolher', a curadoria, para falar a palavra da moda da MTV, é muito bacana. E era mesmo sem nenhuma modéstia", completa.

  • LEIA MAIS: Acústico MTV volta com Tiago Iorc, mas formato ainda faz sentido?

Thunderbird escolheu o Acústico do Roberto Carlos como o um dos momentos mais marcantes do longo período dele no canal. (Escute essa e as histórias inesquecíveis de Cuca Lazarotto, Zeca Camargo, Sabrina Parlatore e Marina Person no podcast).

Ele foi o apresentador do programa que nunca foi exibido por uma divergência entre MTV e Globo.

"Perceber detalhes, como o teleprompter duplo que o Roberto Carlos usa, como ele é afinado, a preocupação dele com palco, com cenário, ver ele chorando nos braços do Erasmo Carlos nos bastidores", cita Thunderbird.

"Eu me senti presenteado de ter presenciado aquilo e ter participado daquilo, foi um dia muito especial mesmo", diz.

'Carnaval' da MTV

A MTV Brasil criou o VMB, premiação brasileira para celebrar os melhores videoclipes do ano, assim como existia o VMA (Video Music Awards) nos Estados Unidos.

De 1995 a 2012, todo ano a emissora preparava um grande programa, que premiava artistas, proporcionava encontros e era um momento de grande audiência.

"Era o nosso carnaval. Todo ano a partir de 95, aquele era o nosso grande desfile e quando acabava o VMB de um ano, a gente começava o planejamento para o carnaval seguinte. Assim foi de 95 até quase o final", lembra Zico Goes.

Caetano Veloso no VMB 2004 — Foto: Reprodução/YouTube

Ele também lembra do famoso climão que rolou no VMB de 2004 com Caetano Veloso e David Byrne. Os cantores tentaram começar a música duas vezes, mas, por conta de uma microfonia, pararam e o Caetano soltou a pérola:

"Pessoal da MTV, vergonha na cara, vamos começar de novo e bota essa porra para funcionar direito".

Zico conta que o clima era de caos nos minutos em que tentavam achar e solucionar o problema nos bastidores do prêmio ao vivo.

Mas, depois, o que poderia ser uma noite de vergonha foi aproveitada pelo famoso não se levar tão a sério da MTV.

"Ele nos fez um favor mesmo, porque o erro técnico que é feio, foi superado pelo escândalo, pelo chilique", opina o executivo.

O momento não foi apagado da reprise do prêmio, pelo contrário, foi utilizado em chamadas, peças publicitárias e virou título do livro de Zico sobre o período em que trabalhou na MTV.

"A MTV tinha um pouco como mote também incomodar. A gente não queria que as pessoas ficassem acomodadas, a gente queria que elas ficassem incomodadas, principalmente a nossa audiência, que era um bando de jovem", fala o executivo sobre a situação do VMB e outras campanhas como "Desligue a TV e vá ler um livro".

Qual a herança da MTV?

A MTV nunca foi uma emissora com bons números no Ibope, e isso não era uma novidade, porque também acontecia nos Estados Unidos.

A força maior do canal era como marca, como lugar de identificação com os jovens. Cris Lobo lembra que em 1999 houve uma reunião em que a equipe foi cobrada por uma melhora na audiência e aconteceu uma mudança na grade.

"Foi aí que a gente começou a tocar, por exemplo, músicas que a gente não tocava antes, como Zeca Pagodinho."

"Esses programas de longa formato, programa de namoro surgiram para tentar puxar audiência e deu super certo, mas também foi muito estressante porque também tinha crítica, jornalista falando 'ah e a música?'", explica.

Zico credita a derrocada final da MTV ao surgimento a internet, o YouTube e os múltiplos espaços que se abriram fora da televisão.

"A partir do YouTube principalmente e do grande acesso a tudo que a internet ofereceu para todo mundo, a MTV deixa de ser 'o único canal jovem'. Tem um canal jovem muito mais fácil que é a internet", percebe Goes.

"Não vou nada muito específico de internet, de blogueiros ou influencers, mas eu acho que esse jeito despojado, a chance de dar voz e tela para alguém que não é muito articulado, que é totalmente desconhecido, acho que a MTV inaugurou isso e a internet escancarou", diz Goes.

"Por isso que eu digo que tem um pouquinho de MTV em cada lugar. Esse deboche, esse não ter muita regra, não ser muito amarrado... acho que a internet está aí para isso e substitui a MTV nesse sentido", conclui.

Já Thunderbird analisa o legado desses 23 anos da emissora na música brasileira: "A MTV é responsável por apresentar alguns movimentos interessantes e algumas bandas que não teriam acontecido se não fosse a MTV, como Chico Science e Nação Zumbi, Raimundos, Planet Hump".

"Não haveria bandas Emo, sem a MTV. Não haveria Fresno, não haveria NX Zero, CPM22. Charlie Brown JR. aconteceu por causa da MTV. Eu lembro de ficar amigo do Chorão e falar muito sobre isso. Ele sacava isso que a MTV foi primordial pro sucesso da banda", conclui.

Outra MTV

A parceria entre o grupo Abril e a Viacom dos Estados Unidos terminou em 30 de setembro de 2013, último dia de exibição daquela fase da MTV Brasil.

A partir daquele momento, a emissora deixou de ser exibida na TV aberta e tem como foco na programação a produção e exibição de reality shows.

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