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Mesmo sem procissões, Círio enche aeroporto de Belém e alguns setores preveem melhora

De acordo com a Infraero, 80% dos voos foram mantidos. Hotéis e restaurantes sentem melhoria na clientela. Apesar disso, Dieese-PA cita queda na geração de ocupações e aponta déficit de milhões de reais injetados pela festa católica na economia do Pa

 

As ruas de Belém estão vazias. Nem parece outubro. Em um ano como outro qualquer, os pontos turísticos estariam cheios de gente de toda parte do Brasil e do mundo. Restaurantes repletos de visitantes em busca da famosa gastronomia paraense, peixe, jambu, açaí. Costumava ter tanta gente na cidade em outubro que os hotéis lotavam e para garantir a dormida, era preciso reservar quarto com bastante antecedência. O cenário de festa se formava em torno do Círio, a maior procissão religiosa do país: cerca de dois milhões de pessoas nas romarias que ocorrem ao longo de 15 dias em devoção à Nossa Senhora de Nazaré. Mas este ano está tudo diferente: não haverá procissões.

Por causa a pandemia, Círio 2020 terá novo formato para evitar aglomerações. — Foto: Tarso Sarraf

A programação será virtual. A regra é ficar em casa e evitar multidão - que sempre foi o símbolo da festa mariana. Mas a mudança se faz necessária como medida de saúde pública para evitar a contaminação na pandemia do novo coronavírus. A novidade, no entanto, tem seus custos. De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese-PA), o déficit pode ser de milhões de reais e redução drástica na geração de ocupações.

A previsão leva em consideração os números do mesmo período de anos anteriores. O Círio de 2019, por exemplo, movimentou cerca de R$ 1 bilhão e gerou ocupação para 60 mil pessoas. Belém recebeu 83 mil turistas de fora do estado e outros milhares que vieram de cidades vizinhas para acompanhar a festa religiosa. Sem as romarias, o mês mais importante para a economia regional enfrenta um desafio histórico.

Registro da procissão do Círio 2019: 2 milhões de fiéis participam da maior festa religiosa do Brasil — Foto: Tarso Sarraf

“Não dá para calcular o impacto na economia, mas certamente será grande”, prenuncia Roberto Sena, supervisor técnico do Dieese-PA.

“Ocorre que o Círio é tão importante que muitas famílias tiram o sustento principal em outubro, e vivem com esse dinheiro o resto do ano. É o cara que entrega água, vende sorvete, faz a fitinha, vende a imagem, entrega lanche”, analisa.

De acordo com estudos do Dieese-PA, embora a quadra nazarena contribua com todos os setores da economia, quatro deles são os mais movimentados pelo Círio: serviço, comércio, indústria e agropecuária. Consequentemente, estes devem ser os mais atingidos pela mudança que suspendeu a procissão este ano.

“O impacto vai desde a venda da água mineral à feira do miriti. Hotéis já estariam lotados nesta época. Hoje, quem conseguir 20% de lotação já está de bom tamanho”, diz Sena.

Pandemia: sem público presencial, missa vazia na Basílica Santuário, em Belém, o maior ponto de turismo religioso do estado — Foto: Reprodução / TV Nazaré

Turismo

Apesar do prognóstico preocupante sinalizado pelo Dieese-PA, “o cenário não é de terra arrasada”, pontua Sena. “Um outubro diferente exige que a gente reaja de forma diferente. Vamos reinventar alguns modelos”, diz.

Segundo a Infraero, mesmo com a pandemia e a suspensão da procissão nazarena, 80% dos voos previstos entre 5 e 19 de outubro foram mantidos.

Devem passar pelo aeroporto paraense cerca de 120 mil passageiros, entre embarques e desembarques, segundo estimativa da Infraero. No período, devem ocorrer 947 operações, entre pousos e decolagens. No mesmo período do ano passado, foram contabilizados 153.392 passageiros e 1.216 operações.

“O Aeroporto de Belém é um dos terminais brasileiros com a maior proporção de retomada de voos em função da pandemia da Covid-19. Esperamos fechar o mês de outubro com número superior aos 200 mil passageiros embarcados e desembarcados, o que corresponde a 80% da movimentação do mesmo período em 2019”, diz superintendente do aeroporto, Fábio Rodrigues.

Hotelaria

O setor turístico foi um dos mais atingidos pela pandemia. “Dentro dele, certamente a hotelaria foi a mais prejudicada”, garante Antônio Sampaio Neto, empresário do ramo de hotéis há 14 anos. “Foi muito cruel, a ponto de hotéis importantes da cidade terem fechado definitivamente em Belém. Mas felizmente a gente conseguiu persistir. A coisa hoje já apresenta uma relativa melhora”, diz.

Segundo o Sindicato dos Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares do Estado do Pará (SHRBS-PA), as projeções são nada boas para o setor de hotelaria.

O índice de ocupação de leitos deve alcançar uma faixa de 25% do total de leitos disponíveis. Lembrando que o Círio representa a melhor data para os meios de hospedagem da capital paraense, quando todos os empreendimentos atingem 100% de ocupação dos leitos”, informou.

A expectativa é de que a cidade receba muitos turistas este mês, mas com nova configuração. A tendência é bem diferente do que costuma ocorrer em outubro, quando 47% dos turistas que vêm para o Círio se hospedam em hotéis. De acordo com projeção do sindicato, este ano a maior parte do público tende a ficar nas casas de familiares e amigos.

Há de se usar a criatividade para sobreviver à crise. Antônio Neto conta que tem apostado no público local para reerguer as finanças após meses de portas fechadas. “Estamos recebendo as pessoas na piscina aos domingos, com almoços, para movimentar o turismo interno. São pessoas que, por uma razão ou outra, após muitos dias em isolamento, resolvem passar um final de semana no hotel. Então a gente tem criado situações contando com o público da própria cidade, da área metropolitana”, relata.

Ciente de que este ano é atípico, ele conta que fez previsões bem difíceis para outubro, mas foi positivamente surpreendido. “A notícia de que não haveria Círio foi recebida com impacto. Em um ano normal, estaríamos com 90%, 100% da ocupação no hotel. Apesar disso, muita gente ainda virá a Belém. Muitas reservas não foram canceladas. Outubro não será como outros, mas já percebemos um fôlego e indício de melhora”, diz o empresário, que está com 50% do hotel ocupado.

O pato no tucupi é um dos pratos que não podem faltar no almoço do Círio. — Foto: Cristino Martins/O Liberal

Bares e restaurantes

A gastronomia do Pará é reconhecida internacionalmente como uma das mais autênticas do mundo e ganhou selo da Unesco pela criatividade. No Círio, pratos como maniçoba e pato no tucupi integram o almoço tradicional da festa nazarena. Segundo o SHRBS-PA, mesmo na pandemia, o setor se manteve firme. Este ano, a procura por reservas de mesas para o almoço do Círio já é, em média, 40% maior que a registrada no mesmo período do ano passado.

Muitos estabelecimentos vão trabalhar com o envio de pratos da ceia por delivery. Essa demanda é o carro-chefe do restaurante de comida regional de Diva Silva. Há 12 anos à frente do próprio negócio, ela conta que está cheia de encomendas e comemora o aquecimento da clientela. “Tem muita gente que já deixou reservada maniçoba, arroz paraense, muita coisa. E são pedidos grandes, de 8, 10 quilos de maniçoba. Comida para família inteira no almoço do Círio”.

Diva trabalha com a família e emprega diversos ajudantes. “Contratei para me auxiliar no corte dos ingredientes, para catar o jambu, o camarão”. Devota de Nossa Senhora de Nazaré, ela se diz agradecida por ter atravessado o pico da pandemia com saúde e por ter conseguido driblar as dificuldades financeiras de ter que fechar as portas do restaurante por conta do isolamento social.

“O delivery nos manteve. Temos uma clientela fiel e ela que sempre compra as minhas comidas. Foi ela que seguros as pontas aqui durante esses meses”.

Artesanato

Manoel Raimundo Miranda, 54 anos, artesão de Abaetetuba — Foto: Sebrae/PA

Entre as centenas de ocupações que surgem no Círio, o artesanato se destaca. Com forte tradição cultural, o setor é inspirado pela fé mariana e milhares de peças são produzidas no interior do Pará para serem vendidas em outubro na capital.

Um dos personagens mais característicos é o vendedor de brinquedos de miriti. Os objetos coloridos são feitos da fibra da palmeira do buritizeiro. No Círio, os brinquedos são vendidos em toda parte: nas esquinas, praças, em frente a igrejas e nos pontos turísticos.

Manoel Raimundo Miranda, de 54 anos, conta que há 40 anos faz o traslado de Abaetetuba, município do nordeste do Pará, distante quase 125 km de Belém. Ele chega logo no começo de outubro para vender artesanato e produz brinquedos de miriti, além de ex-votos feitos de cera e carregados pelos fiéis para pagar promessas. Toda a família trabalha na produção. “Meu filho, minhas duas filhas, minha esposa e ainda vem gente de fora ajudar”.

Ao saber que este ano não haveria procissão, Seu Miranda ficou apreensivo. Ele espera vender, em média, 5 mil peças em outubro, o que lhe garante sua melhor renda do ano.

“Foi meio que um desespero. Eu me preocupo comigo e com meus amigos, que também dependem da venda do artesanato, e a gente costuma vender muito no Círio”, relata.

Miranda conta que buscou alternativas e encontrou apoio na Feira do Artesanato do Círio, realizada em Belém, pelo Sebrae. “Conseguimos trazer 3 mil peças para serem vendidas. Eu venho também representando a Associação dos Artesãos de Brinquedo de Miriti de Abaetetuba, formada por 32 artesãos fundadores”, afirma.

“Passamos um período difícil, mas as coisas estão melhorando. Quem acredita em Nossa Senhora, sempre é abençoado. Ela é muito forte e não falha”.

VÍDEOS: Círio de Nazaré 2020

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