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Eleições nos EUA: Quem ganhou o debate entre Trump e Biden?

No equivalente político de uma lavagem de roupa suja, o vencedor foi o homem que saiu menos coberto de sujeira.

 

Em um debate que foi o equivalente político a uma lavagem de roupa suja, o vencedor foi o homem que saiu menos coberto de sujeira.

Na terça-feira à noite, esse homem foi Joe Biden — apenas porque seu principal objetivo era provar aos americanos que ele podia aguentar a pressão, que não estava fora de ritmo devido à sua idade avançada. Ele tinha que provar que podia levar uma torta na cara, metaforicamente falando, e manter sua calma.

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Em geral, ele manteve esse padrão ao longo do debate, com um pouco de ajuda de Donald Trump, que, com constantes intimidações e interrupções, deu poucas chances para o ex-vice-presidente dizer algo que prejudicasse a si mesmo.

Trump em seu modo "Twitter" — a faceta não-convencional, bombástica, ofensiva e fomentadora — esteve em plena ação durante o debate que durou uma hora e meia.

Ex-vice-presidente Joe Biden fala durante o 1º debate da campanha presidencial na terça-feira (29) em Cleveland — Foto: Patrick Semansky/AP

Infelizmente para o presidente, muitos americanos, até mesmo seus próprios apoiadores, consideram sua personalidade na redes sociais um de seus atributos menos atraentes.

Trump precisava desse debate para sacudir uma corrida eleitoral que está se virando cada vez mais contra ele — e que tem sido notavelmente estável, mesmo em meio a adversidades econômicas, de saúde e sociais.

Nada nesta campanha eleitoral "vale-tudo" parece até agora mostrar que haverá uma mudança de curso, com um em cada dez eleitores americanos ainda se declarando indecisos.

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'Você pode calar a boca, cara?'

Veja os destaques do primeiro debate entre Donald Trump e Joe Biden

Veja os destaques do primeiro debate entre Donald Trump e Joe Biden

Ficou claro desde o início que tipo de "debate" seria. O objetivo de Donald Trump era abalar Joe Biden — e ele planejava fazê-lo interrompendo constantemente o ex-vice-presidente.

Pelas contas da CBS News, Trump interrompeu Biden um total de 73 vezes.

Isso gerou uma série de intervenções caóticas de ambos os lados, que incluíram Trump questionando a inteligência de Biden, e o democrata chamando o republicano de palhaço, reclamando para Trump ficar quieto e perguntando, indignado: "Você pode calar a boca, cara?"

De tempos em tempos, Trump disparava na direção de Biden, fazendo o democrata rir e balançar sua cabeça.

Quando o moderador Chris Wallace anunciou que o coronavírus seria o próximo tópico e que ambos os candidatos teriam dois minutos e meio ininterruptos para responder, Biden brincou: "Boa sorte com isso."

Moderar este prestigioso evento em horário nobre deve ter sido o pior trabalho nos Estados Unidos na noite de terça-feira.

Donald Trump e Joe Biden no primeiro debate da campanha presidencial — Foto: Reuters

Biden fala para câmera

O coronavírus sempre seria um terreno difícil para o presidente — e o assunto surgiu logo no início do debate. Trump teve que defender a resposta de seu governo à pandemia que até agora já matou mais de 200 mil americanos. Ele disse que as medidas que tomou evitaram mais mortes e sugeriu que Biden teria piorado ainda mais as coisas.

A resposta de Biden foi falar diretamente para a câmera, perguntando aos telespectadores se eles podiam acreditar em Trump (as pesquisas indicam que a maioria dos americanos desaprova a forma como Trump lidou com a pandemia).

"Muitas pessoas morreram e muitas outras vão morrer, a menos que ele fique muito mais esperto, seja muito mais rápido", disse Biden.

Em uma troca de farpas, Trump se gabou do tamanho de seus comícios de campanha, realizados em espaços abertos porque é isso que os "especialistas" — com ênfase nessa palavra — sugerem. Ele então disse que Biden realizou comícios menores porque não consegue atrair multidões maiores.

"As pessoas querem que seus estabelecimentos sejam abertos", disse Trump.

"As pessoas querem estar seguras", rebateu Biden.

Essas idas e vindas demonstraram uma diferença fundamental na forma como os dois candidatos veem a pandemia e se a situação está melhorando — ou piorando.

Raça, supremacia branca e subúrbios

Presidente Donald Trump fala durante o 1º debate da campanha presidencial na terça-feira (29) em Cleveland — Foto: Patrick Semansky/AP

O formato do debate colocou no mesmo bojo questões raciais e de violência urbana. Isso provocou discussões agressivas que deixaram claro uma coisa: Biden se sentia mais confortável falando sobre as questões raciais, enquanto Trump queria discutir violência urbana.

Biden acusou o presidente de fomentar divisões racistas, enquanto Trump atacou o apoio que Biden deu a um projeto de lei de 1993 que levou a taxas de encarceramento mais altas para negros.

Mais adiante, Biden atacou Trump por dizer que a política habitacional apoiada pelos democratas e destinada a aumentar a diversidade ameaçava destruir os subúrbios das cidades americanas.

"Não estamos em 1950, todos esses apitos de cachorro (uma gíria da política americana, em que uma linguagem política é usada para passar uma mensagem a um determinado grupo, sem que outros entendam o significado real) e racismo não funcionam mais", disse Biden. "Os subúrbios estão amplamente integrados."

Ele acrescentou que a verdadeira ameaça para os subúrbios é a Covid-19 e as mudanças climáticas.

Trump teve a chance no debate de condenar diretamente a violência de grupos de direita — desde defensores da supremacia branca a milícias.

Ele disse que condenaria, mas não condenou, e em vez disso disse a um grupo de extrema direita, os Proud Boys, para "recuar e aguardar" (o grupo Proud Boys, que reúne ativistas de extrema direita, comemorou a menção de Trump e respondeu pela internet: "nós estamos prontos").

Trump então mudou de tática e passou a atacar os chamados antifas, uma coalizão informal de ativistas antifascistas e esquerdistas.

Quando Biden foi questionado sobre se, como líder autoproclamado do Partido Democrata, ele havia convocado seus correligionários — o prefeito de Portland e o governador de Oregon — para tomar medidas para conter distúrbios naquela cidade, ele rebateu dizendo que não tinha cargo eletivo.

Wallace deu a ambos os candidatos a chance de ir contra suas próprias bases, o que às vezes pode ser uma estratégia política inteligente. Em vez disso, os dois se esquivaram das perguntas.

A morte de George Floyd e as conversas resultantes sobre racismo institucional e violência policial levaram a manifestações em massa como as que os Estados Unidos não viam há décadas.

O debate de terça-feira lançou pouca luz sobre esse momento importante da história.

Donald Trump e Joe Biden trocam acusações em primeiro debate acalorado

Donald Trump e Joe Biden trocam acusações em primeiro debate acalorado

Trump se gaba de 'fazer acontecer'

Se há uma mensagem que a campanha de Trump queria que os americanos tirassem desse debate — um clipe que foi tuitado da conta do presidente mesmo enquanto o debate estava em andamento — é que Joe Biden teve quase meio século em cargos públicos para resolver os problemas enfrentados pelo país, e esses problemas ainda estão por aí.

"Em 47 meses, fiz mais do que você fez em 47 anos", disse Trump ao vice-presidente.

A resposta de Biden veio mais tarde no debate.

"Com este presidente, ficamos mais fracos, doentes, pobres, mais divididos e mais violentos", disse ele.

Em 2016, Trump concorreu com sucesso contra Washington e o status quo. Fazer isso de novo depois de ocupar o Salão Oval por três anos e meio sempre seria um desafio, mas uma maneira de fazer isso é usando a longevidade de Biden na vida pública contra o democrata.

'Eu sou o Partido Democrata, não Bernie'

Um dos objetivos de Trump durante este debate — e durante toda a campanha — foi pintar Biden como prisioneiro da ala esquerdista de seu partido. Biden, em sua primeira fala no debate, se defendeu.

O tópico de abertura do debate desta noite foi a Suprema Corte, mas Biden rapidamente mudou a discussão para a Affordable Care Act — lei passada pelo governo de Barack Obama que aumentou a proteção de saúde para a população americana. Essa lei está em risco por causa de um caso pendente na Justiça.

Trump acusou Biden de apoiar a "medicina socialista" e pressionar pelo fim do plano privado de saúde, levando o democrata a dizer que isso não estava em seus planos — e estressou que foi ele, Biden, quem ganhou a indicação presidencial democrata.

"Eu sou o Partido Democrata agora", disse Biden, deixando claro que seu rival nas primárias, o esquerdista Bernie Sanders, não dita as políticas do seu partido. "A plataforma do Partido Democrata é a que eu aprovei."

Essa tática ressurgiu mais tarde, durante uma discussão sobre mudança climática, quando Trump tentou vincular Biden aos gastos massivos e às propostas de regulamentação do programa "New Deal Verde" adotado por muitos na esquerda.

"Eu não apoio o New Deal Verde", disse Biden. "Eu apoio o plano Biden que propus."

"Oh, você não apoia?" Trump perguntou. "Bem, essa é uma grande declaração."

Biden não consegue atacar Trump sobre 'impostos ocultos'

A reportagem do "New York Times" sobre os impostos de Trump, publicada na noite de domingo (27), caiu como uma bomba na eleição — o público finalmente estava vendo informações que o republicano tentava ocultar por anos, quebrando uma tradição entre presidentes americanos.

Analistas políticos estavam curiosos para ver como Trump lidaria com isso durante o debate.

Quando o assunto surgiu, no entanto, Donald Trump ofereceu uma defesa semelhante à que apresentou em 2016, quando se gabou de que conhecia o código tributário melhor do que qualquer candidato anterior — e sua capacidade de evitar uma conta tributária maior foi simplesmente sua capacidade de tirar proveito da lei.

Biden, por sua vez, tentou transformar o assunto em uma crítica à reforma tributária aprovada pelos republicanos. Embora ele tenha observado que Trump paga menos em impostos federais do que os professores, essa mensagem — que poderia ter sido um ataque poderoso — ficou soterrada na briga que se seguiu com o presidente.

Se as declarações de impostos de Trump tiverem fôlego para seguir sendo tema nesta eleição, não será por causa deste debate.

Segurança nas urnas

O segmento final do debate foi sobre segurança eleitoral e as preocupações — apresentadas tanto pela esquerda quanto pela direita — de que a eleição não será livre e justa.

Quando se tratou dos detalhes da discussão — se é que podemos chamar de discussão — a maior parte dela girou em torno de Trump compartilhando uma série de alegações enganosas sobre a votação por correspondência, na qual milhões de americanos confiarão este ano, ser cheia de corrupção e incompetência.

"Isso não vai acabar bem", disse Trump a certa altura — um sentimento com o qual muitos americanos em ambos os lados da polarização concordarão, embora por razões diferentes.

Biden, por sua vez, tentou mostrar uma superioridade moral. Ele pediu que todas as cédulas fossem contadas e prometeu respeitar os resultados da eleição assim que o vencedor fosse decidido. Parecia que ele tinha mais alguns pontos para concluir, mas Trump o interrompeu novamente e então Wallace anunciou que o debate havia acabado.

Foi o fim repentino de uma noite caótica que dificilmente pode ser chamada de debate em qualquer sentido tradicional da palavra. Esses debates raramente decidem uma eleição para um dos candidatos, e no caso do debate de terça-feira parece improvável que algum eleitor tenha mudado de lado.

Isso provavelmente é uma má notícia para Trump, visto que uma de suas verdadeiras fraquezas são as eleitoras suburbanas, que dizem que não gostam dos modos às vezes rudes do presidente.

Mas se o objetivo de Trump no debate era transformar esta campanha em uma briga feia, deixando os eleitores alienados do processo e incertos sobre se haverá qualquer tipo de clareza ou resolução no final, ele executou muito bem sua tarefa na terça-feira à noite.

Veja vídeos do debate:

20 vídeos Raquel: diretor da campanha de Trump chama Biden de fraco Sandra: ‘Biden ficou confuso com os berros de Trump’ Demétrio: ‘Foi uma briga de rua de baixo nível’

 

 

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