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A manga está virando o alimento básico dos venezuelanos mais pobres

Uma de cada quatro famílias da Venezuela vive a angústia de não ter alimentos por causa da redução do poder de compra. Elas têm recorrida às árvores de manga na rua para conseguir se alimentar.

 

“Seu almoço caiu do céu!”, disse um homem a outro após quase serem atingidos por uma manga que despencou de uma das centenas de mangueiras existentes em Caracas. A fruta foi cuidadosamente colocada na marmita e ambos seguiram caminho.

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Esta cena se repete no país onde cerca de 79% da população vive em situação de pobreza extrema, de acordo com uma pesquisa divulgada em junho passado pela UCAB, a Universidade Católica Andrés Bello, uma das mais conceituadas da Venezuela.

A arepa, um pãozinho feito de farinha de milho branco, é a comida mais popular do país, mas bem que a manga poderia ocupar este lugar. É graças a esta fruta que duas vezes por ano a população de baixa renda consegue encher o estômago sem ter que pagar por isso.

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Em fevereiro e julho o que vemos pelas ruas do país é uma verdadeira caça às mangas. Pessoas lançam paus e pedras contra as árvores para que pelo menos uma fruta caia. Outros se arriscam e sobem nelas para pegar mais mangas. Há quem caminhe pelas ruas com uma gambiarra feita de um tronco fino de madeira com uma cesta na extremidade para catar mangas sem que estas se deteriorem na queda.

Neste período, não é raro alguém ser atropelado por estar mais atento à colheita da fruta que ao cuidado pessoal.

A manga e o empobrecimento

Ocarina Castillo, antropóloga e decana da Universidade Central da Venezuela (UCV), conta que “catar mangas antes era coisa de crianças, de adolescentes. Agora não é mais uma travessura e sim uma necessidade [alimentar]”.

O jardineiro Hugo Rafael classifica a mangueira como “a árvore da vida, a que salva os venezuelanos”.

Quando consegue trabalho, este jardineiro de 56 anos recebe entre cinco e dez dólares por dia. O valor é superior ao salário mínimo, equivalente a quatro dólares conforme a conversão oficial, mas insuficiente para comprar alimentos.

O Centro de Documentação e Análise Social (Cendas) informou que para uma família na Venezuela cobrir as necessidades básicas de alimentação, em junho deste ano, seriam necessários cerca de 270 dólares.

O dinheiro que Hugo Rafael recebe é usado basicamente para comprar “uma farinha (de milho), um macarrão”.

A Pesquisa Nacional de Condições de Vida (Encovi), o mais detalhado levantamento sobre a situação econômica e social dos venezuelanos, divulgado em junho passado, aponta que pouco mais de 79% dos venezuelanos não têm como adquirir a cesta básica.

“Agora está todo mundo comendo manga”, explica Hugo Rafael, morador de Petare, uma das maiores favelas da América do Sul e um dos lugares mais perigosos da Venezuela.

Uma de cada quatro famílias vive a angústia de não ter alimentos por causa da redução do poder de compra.

Baixo consumo de proteína

Ele precisa completar o que ganha, e mais uma vez a fruta o salva: “Tenho que vender manga a 100 mil bolívares a unidade, e com isso compro um arrozinho”.

Este foi o jeito que Hugo Rafael encontrou para alimentar os dois filhos adultos, que estão desempregados, e três netos com idades entre dois e cinco anos.

“De manhã, como macarrão ou duas arepas e vou trabalhar. No almoço como cinco mangas ou um pão, se alguém me dá. À noite, se consigo comprar algo, como macarrão.”

Sobre o consumo de proteínas, ele conta que “isso está muito caro". "De vez em quando como ovo”, afirma.

Segundo a Encovi, pelo menos 94% das famílias sofrem algum tipo de insegurança alimentar. Entre as classes mais populares, o ovo é a proteína mais consumida. A ingestão proteica no país é de quase 34%.

A dieta do venezuelano vem sendo constituída basicamente por carboidratos. A pessoa come, mas não se alimenta. Cerca de 30% das crianças do país estão com desnutrição crônica e a expectativa de vida dos nascidos a partir de 2015 caiu 3,7 anos.

Hugo Rafael conta que a cesta de alimentos subsidiados pelo governo “há dois meses não aparece”. Da última vez, ele pagou 150 mil bolívares por cerca de sete quilos de alimentos distribuídos àqueles registrados nos programas sociais.

“É o que consigo para comer”

“A manga é um alimento que vai aliviar a fome”, explica a médica e pesquisadora do Observatório Venezuelano de Saúde Marianella Herrera.

“Em situações de emergência como esta, as pessoas se apoiam no que têm. A manga é o mais fácil de conseguir. As pessoas então começam a criar receitas com manga. Chegaram a me perguntar se fazia mal comer manga frita”, conta a médica sobre esta fruta que chegou à Venezuela em 1789.

Em termos de propriedades nutricionais, a manga é rica em fibras, vitaminas C, betacaroteno, açúcares, carboidratos e água. "A questão é quando a pessoa se alimenta apenas de manga, aí temos um problema”, descreve Herrera.

É o caso de Karina, de 35 anos. Desempregada e com uma filha de cinco meses, ela vaga pelas ruas de Caracas pedindo dinheiro e se alimentando com o que consegue.

“A manga dá bastante força e tira um pouco da fome. Não gosto muito de manga, mas é o que consigo para comer, então não posso rejeitar. Alguns dias tenho apenas manga para comer”, conta ela enquanto come migalhas de pão sob os atentos olhares da bebê.

Herrera explica que “ao apenas comer manga, a dieta estará extremamente desequilibrada e com deficiências”.

 

 

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