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Agtechs em busca de um futuro menos incerto.

 
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De uma hora para outra, o novo coronavírus lançou o mundo em um período de incerteza social e econômica. A necessidade do isolamento social fez com que diversas atividades corriqueiras fossem suspensas por um tempo ainda indeterminado, incluindo coisas básicas como reuniões e até encontros com familiares. Nessa hora, a tecnologia tem ajudado a enfrentar dificuldades. Aplicativos de vídeo reduzem as distâncias e ajudam a manter um pouco da normalidade. Serviços de mensagem têm sido usados para que pequenos negócios continuem operando até de portas fechadas. Redes sociais ajudam as pessoas a assistir a aulas, fazer receitas e até replicar um treinamento físico em casa. Nesse mundo cheio de dúvidas, alguns setores, principalmente de serviços essenciais, continuam operando. Outros estão parados, aguardando a volta da normalidade.

Um dos setores que simplesmente não pode parar é o agronegócio, já que é ele que garante o abastecimento de alimentos da população. E assim como tem acontecido em outras áreas, a tecnologia tem ajudado a superar as barreiras. “Em todas as crises enfrentadas pelo Brasil e pelo mundo, o agronegócio se apresentou para fornecer alimentos para a população, e assim será agora”, afirma Rodrigo Iafelice dos Santos, CEO da empresa de agricultura digital Solinftec. No campo, o papel das agtechs já tem facilitado o trabalho dos produtores, seja pelo uso de drones para mapear a fazenda ou de aplicativos que reduzem os gastos com insumos e aumentam a produtividade. “A visão da agricultura de precisão é muito útil nesse momento”, diz Ricardo Campo, gestor do Pulse Hub, centro de inovação da Raízen instalado em Piracicaba no chamado AgTech Valley, um dos principais ecossistemas de inovação no agro do Brasil. “Startups que usam soluções de planejamento e gestão, por exemplo, servem como um bom indicador nesse momento de maior vulnerabilidade econômica”, diz ele. Não à toa, a Solinftec vem registrando um aumento de vendas de suas soluções nos 10 países em que atua, incluindo Brasil e Estados Unidos.

Mas só isso não é suficiente. Os empreendedores têm se mobilizado para desenvolver novas soluções e os esforços são vistos em toda a cadeia.A agfintech Bart Digital antecipou o lançamento de sua plataforma Ativus, que permite a emissão de ativos agrícolas eletrônicos, registro eletrônico e assinatura digital. Originalmente, ela seria lançada em julho, mas a pandemia provocou uma mudança nos planos. “Entendemos que precisaríamos lançar antes”, diz a CEO, Mariana Bonora. Inicialmente, a startup vai priorizar o acesso aos produtores, para assegurar que eles comprem os insumos na época certa, garantindo a próxima safra, além de cooperativas e revendas. “O financiamento da compra de insumos ocorre antecipadamente, então essa fase do mercado agora o maior volume das negociações está na compra”, afirma ela. Assim como a Bart, outras agfintechs, as startups que oferecem soluções tecnológicas financeiras e foram tema de reportagem de capa da Plant Project, podem contribuir muito com soluções para os produtores. “Elas podem ser úteis na tomada de crédito e no uso de ferramentas para mitigar os riscos”, diz Ricardo Campo.

Outra atividade simples, como a emissão de receituários agronômicos, também pode ser feita de maneira remota, dispensando os deslocamentos que normalmente acompanham o processo. Lançada originalmente no final de dezembro, a plataforma FitoApp estava rodando apenas com clientes e parceiros, mas passou a ser divulgada com mais ênfase após o início da pandemia. “Quando surgiu toda essa história do coronavírus, decidimos pisar no acelerador e mostrar a plataforma para o país inteiro”, diz George Hiraiwa, fomentador agtech e sócio da startup. Com mais de 700 usuários no Brasil, o aplicativo permite que agrônomos emitam seus receituários usando assinatura digital. Em seguida, eles podem ser encaminhados para revendas ou cooperativas, que por sua vez podem entregar os insumos por delivery. “Os profissionais de agronomia têm como característica os deslocamentos diários, podendo se tornar grandes dispersores da doença”, diz Hiraiwa. Com o uso da solução, os impactos são reduzidos. Gratuito, o FitoApp conta com um banco de dados em que estão todos os insumos cadastrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O processo todo ganha agilidade, o produtor e o técnico não precisam sair de casa e as revendas podem otimizar seus recursos.

Entrega em casa

No ecossistema agtech e food tech, os aplicativos de delivery estão entre os serviços que mais receberam aportes dos fundos de venture capital nos últimos anos. Só no Brasil é possível ver o exemplo do iFood e da Rappi, startup colombiana que é uma das potências do setor por aqui. E se esses serviços já vinham crescendo nos últimos tempos, agora deram uma guinada ainda maior. Os dois aplicativos não divulgam os dados, mas reportaram um “aumento significativo” nos pedidos desde que o isolamento social se tornou a recomendação do Ministério da Saúde. Em março, por exemplo, foram 10% a mais de pedidos de farmácia feitos no Rappi.

O movimento é natural, já que as pessoas deixaram de sair para comer, ir à farmácia e até fazer compras – e tudo isso pode ser feito pelo Rappi, por exemplo. Movimentos nas redes inclusive incentivam os consumidores a fazer pedidos online de seus restaurantes preferidos, já que eles correm risco de fechar de vez se não encontrarem maneiras de continuar produzindo. Esse aumento na demanda também levantou questões sobre a segurança dos entregadores desses aplicativos. As empresas criaram opções de entrega sem contato, em que as encomendas são deixadas na porta ou na portaria.

O SoftBank, conhecido por seus enormes aportes em startups do mundo inteiro, já mostrou sua preocupação com as dificuldades de suas empresas. Responsável por um investimento de R$ 1 bilhão no Rappi em 2019, o grupo japonês está captando US$ 10 bilhões para ajudar as startups do portfólio de seu Vision Fund afetadas pela pandemia. Enquanto apps de delivery, como o DoorDash, estão aproveitando a alta demanda, outros, como a Uber, estão vendo as corridas diminuírem drasticamente – em cidades mais afetadas, como Seattle, nos Estados Unidos, o número de chamadas caiu mais de 70%.

Os pequenos produtores, que de repente passaram a ter ainda mais dificuldade para escoar sua produção, passaram a recorrer a serviços de entrega específicos. É o caso da Agro Orgânica e da Raízs, startups que conectam produtores a consumidores interessados em receber cestas de produtos diretamente em suas casas.

Em busca de soluções

Assim como pesquisadores e cientistas ainda não têm uma vacina ou um medicamento prontos para enfrentar o novo coronavírus, não existem soluções prontas para mitigar os efeitos da pandemia em outras áreas. Por isso, hubs, incubadoras e aceleradoras estão lançando desafios para encontrar serviços e ferramentas capazes de ajudar os empreendedores. A principal iniciativa foi o Desafio Covid-19, promovido pela Bayer em parceria com o AgTech Garage, hub de Piracicaba. O projeto priorizou relações trabalhistas e fluxo de caixa, logística, comercialização da produção, atendimento e assistência remota e acesso a insumos e crédito de maneira digital. Publicamos aqui no StartAgro a lista de agtechs selecionadas.

Com uma proposta um pouco diferente, a Shawee, empresa que organiza hackathons, lançou o Mega Hack Covid 19, uma maratona criativa virtual para desenvolver um grande banco de soluções capazes de ajudar no futuro ainda incerto. Sem curadoria, qualquer empresa pôde participar. As ideias ficam arquivadas em uma plataforma digital. Hubs e fundos de investimento têm acesso a esses projetos, viabilizando aqueles com maior potencial. O Pulse Hub apoiou o hackathon e disponibilizou seu ecossistema de inovação na busca por soluções. Outras iniciativas, como o BRDE Labs, olham para o futuro e procuram por serviços e tecnologias capazes de ajudar os produtores no período após o fim da pandemia.

Um novo mundo

Neste momento de muitas questões e poucas respostas, os pesquisadores e analistas parecem concordar em um ponto: ao fim da pandemia, veremos um mundo bastante diferente do que estamos acostumados. “As pessoas serão forçadas a conhecer novos meios de trabalhar”, diz Mariana Bonora. “Sem dúvida é um período de crise, mas podemos extrair coisas boas.”

Para o agro, uma das mudanças que deve ser acelerada é a digitalização. O movimento já vem acontecendo há algum tempo, mas a adoção emergencial de algumas ferramentas vai ajudar a desmistificar as soluções digitais para muitos produtores. “Deixou de ser algo incremental para se tornar um fator determinante para a sobrevivência”, afirma ela. “A agricultura digital está preparada para dar as respostas que permitem que o agro mantenha sua saúde e atravesse esse período mantendo produção, alimentando o país, e contribuindo com insumos para o mercado internacional”, concorda Rodrigo Iafelice.

“Não sabemos onde isso vai parar”, diz George Hiraiwa. “Mas acredito que vai haver uma mudança no mindset das pessoas, principalmente na valorização do tempo de todos”. Segundo o fomentador agtech, o relacionamento sofrerá mudanças mais perceptivas, com muitas interações que antes aconteciam pessoalmente migrando para ambientes online.

Claro que ninguém tem certeza do que acontecerá. Pacotes de ajuda financeira estão sendo desenvolvidos mundo afora, e futurólogos se debruçam sobre a situação para tentar entender qual será o aspecto do mundo que vai emergir com o fim da pandemia. A produção de alimentos, no entanto, vai continuar. E nunca houve um momento em que a criatividade e a capacidade de inovação das startups do agro brasileiro foram tão necessárias. “Estamos nos adaptando todos os dias”, diz Mariana Bonora.

 

 


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