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É preciso saber onde e como reflorestar em todo o planeta.

 
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Técnicas de sensoriamento remoto e modelagem estimam que a “restauração florestal” em 900 milhões de hectares, em diferentes regiões do planeta, poderia sequestrar 205 gigatoneladas de carbono. É o que mostra a revista Science ao publicar, recentemente, o artigo The global tree restoration potential.

Tendo como primeiro autor o ecólogo Jean-François Bastin, do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça, o documento indica “a solução mais efetiva para as mudanças climáticas até o momento”. O artigo teve enorme repercussão na mídia, exatamente por conta das técnicas usadas para esse fim, consideradas equivocadas por diversos especialistas da área, incluindo uma brasileira.

O estudo foi contestado por um grupo internacional de ecólogos liderado por Joseph Veldman, da Texas A&M University, nos Estados Unidos. A convite dos editores da Science, o grupo elaborou uma resposta, que foi agora publicada na revista com o título “Comment on The global tree restoration potential”.

Brasileira aponta equívocos

Entre os signatários do texto, destaca-se William Bond, professor emérito da University of Cape Town, na África do Sul, e considerado a maior referência mundial em ecologia de savanas. Vários pesquisadores brasileiros também participaram da redação da resposta – dentre eles, Giselda Durigan, do Laboratório de Ecologia e Hidrologia do Instituto Florestal do Estado de São Paulo.

“Além de basear-se em cálculos equivocados, a proposta de Bastin e colaboradores é uma ameaça às savanas e campos e aos recursos hídricos do planeta”, diz Giselda, em entrevista à Agência Fapesp.

Segundo a pesquisadora, Bastin e colaboradores cometeram “erros de um primarismo grosseiro”, ao ponto de incluírem, entre as áreas reflorestáveis, o Parque Nacional de Yellowstone, nos EUA; a região dos Llanos, na Venezuela, considerada um dos ecossistemas mais importantes do planeta; e o Cerrado, no Brasil, que constitui a savana mais biodiversa do mundo e a região onde nascem alguns dos principais rios do País – o Xingu, o Tocantins, o Araguaia, o São Francisco, o Parnaíba, o Gurupi, o Jequitinhonha, o Paraná e o Paraguai, entre outros.

“Infelizmente, as principais premissas e cálculos realizados pelos autores do estudo estão incorretos, resultando em uma superestimativa, em cinco vezes, do potencial de plantações florestais para capturar carbono e mitigar as mudanças climáticas. Além disso, Bastin e colaboradores incluíram, no mapa de regiões potenciais para reflorestamento, muitas áreas em que as árvores reduziriam o albedo e aumentariam o aquecimento global. E propuseram plantações florestais em quase todas as regiões de campos e savanas tropicais e subtropicais do planeta”, contesta Giselda.

Cenário da floresta

O albedo é a quantidade de energia solar que a superfície da Terra reflete. Quanto mais escura a superfície, menor a reflexão e maior a absorção da luz, que se transforma em calor. Uma floresta absorve muito mais calor do que um campo aberto. Quando se transforma um campo aberto em floresta, isso faz com que a região passe a absorver mais energia, podendo contribuir para o aquecimento global.

A ciência, além disso, já demonstrou que, quando se aumenta a biomassa de árvores, isso compromete a produção de água nas bacias hidrográficas, porque as árvores retêm, nas copas, boa parte da chuva e usam muita água para viver.

Para a pesquisadora brasileira, reflorestar é uma excelente ideia, mas é preciso saber onde e como fazê-lo. Em sua visão, o tema é complexo e envolve múltiplos parâmetros e variáveis – cenário que quem publica um artigo na Science deveria saber.

“Bastin e colaboradores fecharam o foco no balanço do carbono. E, ainda por cima, erraram as contas, subestimando o carbono aprisionado no solo sob vegetação campestre e superestimando a capacidade das árvores de acumular carbono”, afirma Giselda.

Escolha mais criteriosa

Em sua opinião, “pela afoiteza e pela grandiosidade, esse artigo acabou comprometendo uma boa ideia, pois várias regiões em que existiam florestas e se encontram agora degradadas poderiam de fato ser reflorestadas, com resultados muito positivos”.

Para isso, no entanto, “seria necessária uma escolha muito mais criteriosa das áreas, levando em conta conhecimentos já consolidados, que vão muito além daqueles proporcionados pelo sensoriamento remoto e a modelagem”, diz a pesquisadora brasileira.

De acordo com ela, os campos e savanas, que são formações naturais, foram tratados como áreas degradadas. “Eles ignoraram que o clima não é o único fator natural que regula a biomassa dos ecossistemas. E ignoraram também estudos recentes que mostram que o plantio de árvores em larga escala sobre campos e savanas pode trazer consequências muito negativas para a biodiversidade e os serviços desses ecossistemas abertos, que são mantidos por regimes naturais de fogo e herbivoria há milhões de anos.”

Giselda acredita que o artigo de Bastin e colaboradores alcançou uma repercussão excepcional, porque agradou a todas as grandes empresas e países que se beneficiam da queima de combustíveis fósseis para alimentar suas economias.

“Se o mundo acreditar nos argumentos apresentados no artigo, a pressão para que as empresas reduzam as emissões decorrentes de queima de combustíveis fósseis vai diminuir muito”, alerta.

Fonte: Agência Fapesp

 

 

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