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'''Meu livro não está na Venezuela porque custaria o salário de 4 meses''', diz autora de '''Noite em Caracas''' na Flip

Karina Sainz Borgo lançou seu primeiro romance em janeiro na Europa. Ela participou da 17ª Festa Literária Internacional de Paraty ao lado do brasileiro Miguel Del Castillo.

 
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Karina Sainz Borgo lançou seu primeiro romance em janeiro deste ano. “Noite em Caracas” relata a crise humanitária na Venezuela. Publicado na Espanha, teve direitos negociados para 22 países. A Venezuela não é um deles.

“Não tem medicamento, comida. Se eles quiserem comprar meu livro com o preço europeu, gastariam o salário de quatro meses. Temos uma iniciativa com uma editora pequena para distribuir ali, mas ainda não concretizamos."

A escritora se apresentou na 17ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) nesta sexta (12), ao lado do brasileiro Miguel Del Castillo. Ele é autor de “Cancún”, um livro que mistura conceitos de masculinidade e religião.

Os dois livros partem do luto, com as mortes da mãe da protagonista de “Noite em Caracas” e do pai do protagonista de “Cancún”.

“É uma morte alegórica e política. As sociedades regidas por ditadura têm um poder que devora os indivíduos, não há melhor definição disso”, explica Karina.

Para Miguel, o luto também é alegórico. “É a morte da infância entrando na adolescência. e também de um ideal de masculinidade que aquele protagonista não tem”.

A dor de deixar a Venezuela

Karina Sainz Borgo apresentou seu 'Noite em Caracas' na Flip — Foto: Walter Craveiro/Flip/Divulgação Karina Sainz Borgo apresentou seu 'Noite em Caracas' na Flip — Foto: Walter Craveiro/Flip/Divulgação

Karina Sainz Borgo apresentou seu 'Noite em Caracas' na Flip — Foto: Walter Craveiro/Flip/Divulgação

Karina carrega culpa por ter deixado a Venezuela em 2006. Dos males do menor, pelo menos essa culpa gerou um ótimo livro. Esse é o sentimento de toda uma geração.

“Às vezes digo que nunca saí porque minha cabeça permanece ali. Mas saí porque fui desenraizada, já não pertenço a lugar nenhum."

"Temos um país que expulsa seus netos, persegue as pessoas. O desenraizamento dessa geração, o medo e a ansiedade te fazem sentir culpado.”

A escritora se sentiu por muitos anos sem direito de falar sobre seu país. E, por isso, pede um olhar cuidadoso aos leitores, sem julgamentos. “Não é um livro político, é literatura. O que eu fiz foi falar de coisas terríveis. Eu quero que gere empatia, mas um autor não consegue controlar o que seu livro provoca.”

Seu romance mistura personagens de diferentes países da América Latina porque, para ela, é um problema que extravasa as fronteiras da Venezuela.

“É vital falar sobre os ciclos autoritários da América Latina. Temos muito em comum, recebemos chilenos, argentinos, mentes brilhantes que nos ajudaram a construir nosso país. Por isso quis formar um grande coro de migrantes e peregrinos”, explica.

Evangélicos sem demônios

Miguel Del Castillo fala sobre seu livro 'Cancún' na Flip 2019 — Foto: Walter Craveiro/Flip/Divulgação Miguel Del Castillo fala sobre seu livro 'Cancún' na Flip 2019 — Foto: Walter Craveiro/Flip/Divulgação

Miguel Del Castillo fala sobre seu livro 'Cancún' na Flip 2019 — Foto: Walter Craveiro/Flip/Divulgação

Em seu livro, Miguel fala de um grupo cada vez mais pop no Brasil: o dos evangélicos. O assunto pode despertar paixões e ódios atualmente, mas ele prefere ficar sempre um passo atrás.

“Minha ideia era falar sobre os evangélicos sem maniqueísmo. Estamos em um momento muito maniqueísta no país com a polarização. Mas sempre que olhamos atentamente a um assunto, a complexidade da vida se impõe. Nas igrejas, comunidades podem ser muito amorosas mas também muito julgadoras.”

O autor leu a Bíblia durante a vida inteira e acompanhou de perto o descimento das igrejas evangélicas no Brasil, tanto em número quanto em proeminência no debate, sobretudo político.

“Saindo do livro e olhando o que tem acontecido, existe um fascínio pelo poder que me parece muito distante do que o evangelho significa em essência."

"Jesus começou a pregar em um canto completamente esquecido do Império Romano, sempre dizia que seu reino não era deste mundo.”

O escritor aproveitou para comentar a fala do presidente Jair Bolsonaro nesta quarta-feira (10), de que indicará para o STF um ministro “terrivelmente evangélico”.

“Não há problema se um ministro for evangélico ou ateu. Mas quando se diz ‘terrivelmente evangélico’ implica uma belicosidade e uma imposição à sociedade, diferente da maneira que Jesus pregava, que não impunha nada. É incompatível com a ideia do evangelho, acho uma pena.”

 

 

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