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Haja saudade

Marcello Rollemberg é editor de Cultura do Jornal da USP

 
Marcello Rollemberg – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

O dedilhar único ao violão. A busca incessante (e muitas vezes, segundo alguns, insensata) pela perfeição. As idiossincrasias em doses industriais. O cantar baixinho, delicado, ensinando gerações posteriores que cantores não precisam se esgoelar para se fazerem entender e sentir. A bossa nova. Junte todos esses ingredientes e você terá, em estado puro, João Gilberto Pereira de Oliveira. Ou, simplesmente, João Gilberto, nome que praticamente virou verbete para definir música brasileira, e que morreu no último dia 6 de julho, no Rio de Janeiro, aos 88 anos. Ele era muito, mas muito mais que apenas uma “pessoa conhecida”.

Morreu? Bem, dizem que gênios como ele não morrem, exatamente. Apenas mudam de patamar. Se for assim – por mais que essa pareça uma definição pueril -, João Gilberto mudou de patamar. Pela última vez. Porque ao longo de sua carreira musical, João nasceu e renasceu várias vezes, mudou de patamares, inventou outros. Ou, parafraseando-o, vivenciou e venceu várias etapas. “A vida é uma estrada, cheia de etapas. A gente começa a caminhar, para de vez em quando, de vez em quando volta para reencontrar o caminho certo – e um dia chega ao fim.”

Antes de encontrar o epílogo em seu apartamento no Leblon e rodeado de pendengas financeiras com a família e com ex-gravadoras, João, mais que caminhar, criou caminhos próprios. Do jovem que integrava grupos vocais como Garotos da Lua e Anjos do Inferno e soltava dós de peito de fazer corar Orlando Silva e Vicente Celestino até o cantar baixinho que marcou a bossa nova (que ele acabou por criar), foi uma reinvenção. O trompetista e cantor americano Chet Baker (que tinha um fiapo de voz) pode ter sido a inspiração, mas a realização foi mesmo dele, João Gilberto. E esse momento tem data cravada: 10 de julho de 1958, o dia em que gravou Chega de Saudade, marco inicial e hino bossa-novista por excelência.

A primeira gravação da composição de Tom Jobim e Vinicius de Moraes foi de Elizeth Cardoso, que aparece em seu LP Canção do Amor Demais no mesmo ano da graça de 1958 – com João ao violão. Mas essa aparição inaugural na voz de Elizeth acabou eclipsada pela própria versão de João Gilberto, aquela que ficou definitiva. Porque João cantou baixinho.

“Apenas procuro cantar sem prejudicar o sentido poético e musical das composições. É assim como tirar os excessos, seguir o curso natural das coisas, dar as notas de um jeito tal que não prejudique o sentido da poesia, frisar aquelas palavras que têm a força poética”, afirmou ele em 1959, em uma entrevista à revista Radiolândia.

João Gilberto em fotomontagem via Starlight e Tuca Vieira/Wikimedia Commons

Getz, Sinatra e aquela meninada toda

A partir daí, estava lançado aquilo que no Brasil seria conhecido como “bossa nova” e no mundo como “brazilian jazz” – talvez por falta de uma definição melhor, já que o que João Gilberto, Tom, Vinicius e outros que eles inspiraram era música brasileira, era uma outra forma de tocar samba, mas também era uma maneira bem diferente de fazer música. Podia haver uma influência jazzística, mas não ia muito além.

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Mas se os americanos precisavam de um selo para abrir caminho para aquele dedilhar de violão e aquele jeito de cantar, ok. Até porque o que importava era que a bossa nova nascia justamente em um momento em que o Brasil parecia, finalmente, que ia dar certo. Para longe do “complexo de vira-latas” rodrigueano, o País era campeão do mundo de futebol, tinha um presidente que prometia fazer 50 anos em cinco, uma capital novinha em folha que brotava no Planalto Central e uma música que representava uma novidade planetária. Queriam chamar de jazz, mesmo que abrasileirado? Pois chamassem. E foi assim que João Gilberto gravou um álbum icônico nos EUA: o Getz/Gilberto, com o saxofonista Stan Getz. Produzido em 1963 – um ano depois do concerto no Carnegie Hall de Nova York, patrocinado pelo Itamaraty para lançar oficialmente a bossa nova nos Estados Unidos -, o disco ganhou um Grammy, muitos aplausos e uma leva de seguidores.

Todo mundo queria cantar bossa nova, até vozes improváveis, como Frank Sinatra. Ele gravou um outro disco mítico, dessa vez com Tom Jobim, no qual canta baixinho. Ou, como lembrou Ruy Castro em seu livro Chega de Saudade, o “mais baixinho que Sinatra conseguia cantar”.

Na esteira de João Gilberto e dos criadores da bossa nova veio uma leva de jovens que encontraram naquela batida e naquela musicalidade sentido para a vida. Gente como Nara Leão, Marcos Valle, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal… Uma meninada que queria cantar o sol e o sul balançando num barquinho. E ainda mais gente depois. Procure com atenção no DNA musical de Chico Buarque, Rita Lee, Roberto Carlos, Caetano e Gil, para ficarmos apenas nesses exemplos. Sempre haverá a bossa nova ali. E, obviamente, João Gilberto.

Ouvido absoluto

João era um gênio, como já foi dito aqui. Mais do que um clichê, essa é uma certeza para todos os que o conheceram ou o ouviram. E como todo gênio – mais um clichê, mas também uma realidade -, ele tinha suas manias, suas idiossincrasias. Como ensaiar exaustivamente uma música, até achar que havia chegado à batida perfeita, à interpretação exemplar. Tudo bem que muitos juram que não é verdade que o gato de João – apropriadamente chamado de… “Gato” – tenha se jogado da janela ao ouvir pela enésima vez seu dono dedilhar O Pato ao violão. Mas é plausível.

Quantas e quantas vezes João Gilberto deixou de se apresentar em um show ou interrompeu uma apresentação devido a barulhos que só ele ouvia ou ao ar-condicionado que poderia desafinar instrumentos ou afetar sua voz, atrapalhando a interpretação perfeita. O colunista e ex-craque Tostão relembrou recentemente, em sua coluna na Folha de S.Paulo, um episódio emblemático. Antes de começar a cantar em um show (no qual Tostão estava) devido a problemas no som, alguém da plateia perguntou: “João, você acredita na perfeição?”. A resposta foi um paroxismo joão-gilbertiano: “Não, mas a imperfeição me incomoda muito”.

João tinha o que se chama de “ouvido absoluto”, uma audição para além das dos simples mortais. Em outra situação, ele interrompeu uma apresentação porque o som de uma britadeira não estava deixando que ele se concentrasse. O problema era que ninguém estava ouvindo a tal britadeira. Show interrompido, enviados especiais foram mandados para fora do teatro procurar o problema. E encontraram – a três quarteirões do local do show, realmente havia homens trabalhando na rua. Com uma britadeira.

Mas uma outra história, menos musical mas ainda assim emblemática, talvez possa resumir bem a capacidade auditiva que refletia no talento de João Gilberto. Andando de carro de madrugada com um amigo pelas ruas do Rio de Janeiro, como gostava de fazer em seus áureos tempos pré-completo isolamento, João assustava o acompanhante atravessando todos os semáforos vermelhos. Até que, em um que estava verde, João foi desacelerando, desacelerando, até parar. Nesse momento, cruzou à frente deles um carro na maior velocidade. O amigo ficou intrigado.

“João, você passou todos os semáforos vermelhos e parou no verde. Como sabia que um outro carro cruzaria a rua?”

“Eu o ouvi chegando.”

João Gilberto dirigia de ouvido.

 

 

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