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Os bordões estão transformando a música pop brasileira em uma Escolinha do Professor Raimundo?

Cê acredita , Cebruthius , Yukê? , Chora não, coleguinha , Vai, Safadão ... Cantores apostam na repetição de frases engraçadinhas que estão virando até marcas registradas no INPI.

 
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Personagens tentam cativar o público repetindo um bordão engraçadinho atrás do outro. Poderia ser uma nova temporada da "Escolinha do Professor Raimundo", mas é a geração atual da música pop brasileira.

As frases se repetem em todo canto: gravações de funk, shows de forró e pagode, redes sociais... Os bordões divertem e ajudam a moldar e popularizar as imagens dos cantores.

A piada virou negócio: bordões foram alvos de disputa no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), casos de “Cê acredita”, de Kevinho, e “Cebruthius”, da MC Loma. Outros, como "Vai, safadão", tiveram registro aprovado em 2019. Há também pedidos recentes em análise de Simone & Simaria ("Chora não, coleguinha") e Jerry Smith ("É o pique").

No vídeo acima e na arte abaixo, veja os alunos mais aplicados dessa escola e entenda a seguir como os shows e clipes brasileiros estão quase virando quadros do "Zorra".

Escolinha do Pop: veja os principais bordões de artistas brasileiros — Foto: Rodrigo Sanches/G1 Escolinha do Pop: veja os principais bordões de artistas brasileiros — Foto: Rodrigo Sanches/G1

Escolinha do Pop: veja os principais bordões de artistas brasileiros — Foto: Rodrigo Sanches/G1

O G1 falou com cantores e especialistas em música e humor sobre as origens e as funções dos bordões. No geral, fica claro que:

  1. O funk adotou os "carimbos", assinaturas sonoras de DJs e MCs, tradicionais no rap e na eletrônica. Além de seus carimbos, os DJs de funk ajudam os MCs ao registrar conversas e piadas no estúdio e incluir nas faixas. Daí surgem bordões dos cantores.
  2. O circuito de shows do Nordeste do Brasil, especialmente de forró, brega e pagode baiano, é terreno fértil para bordões. As frases não nascem em estúdio, mas ao vivo.

Wesley Safadão e Léo Santana são dois mestres dessa arte no forró e no pagode. Já no funk, o maior exemplo é MC Kevinho. Foi de zoeira no estúdio que surgiu o "cê acredita" dele, registrado pelo DJ Jorgin.

A união da música do Nordeste com o funk não poderia deixar de render grandes bordões. A estrela do brega-funk MC Loma emplacou gritos como o "cebruthius!" (pronúncia improvável dela para o inglês "the Bluetooth").

Fácil, sonoro e legítimo

O objetivo imediato é divertir e engajar o público. "Quanto mais fácil, sonoro e legítimo, melhor", diz Marcela D'Arrochella, diretora comercial do site Sua Música, forte no mercado do Nordeste.

"No forró isso é intenso, tanto no estilo eletrônico atual quanto no tradicional, lá da vaquejada. O Mano Walter é um cantor que pega coisa lá do passado e emplaca bordões à moda antiga como 'o chicote vai estralar'", cita Marcela.

A tradição também é viva, como sabe bem Wesley Safadão, sempre atento ao papo do povo na rua. "Ele sempre tem bordões novos nos shows. Às vezes eles até viram música, como 'vida de casal é boa, só perde para a de solteiro' [de 'Sonhei que tava me casando]", afirma Marcela.

Construção de personagem

Marcela também vê nas frases estratégias específicas. É o caso de Simone e Simaria, que se lançaram como dupla em 2012, após sucesso na banda Forró do Miúdo. Foi quando começaram a usar bordões como "chora não, coleguinha".

"O bordão ajudou a posicioná-las como dupla, a fazer todo mundo saber que agora não era a banda, mas as duas, as 'coleguinhas'", ela explica.

Outro bordão que identifica o personagem com poucas palavras é o "cê acredita", do MC Kevinho. Não que tenha sido planejado.

"Eu já falava isso com meus amigos, brincando. Fui gravar 'Olha a explosão' com o DJ Jorgin. No estúdio eu falo um monte de besteira, e ele deixa gravando. Ele pegou o 'cê acredita' e falou: 'E aí, o que você achou?'. Achei fera, vi que ia virar. E deu certo", conta Kevinho ao G1.

A frase, repetida por ele depois em várias músicas, tem a cara de Kevinho e de sua trajetória: a irreverência, o sotaque do interior paulista e ainda um tom de surpresa e superação.

Kevinho tatuou seu bordão 'Cê acredita' no braço — Foto: Tiago Alves/Divulgação  e Rodrigo Ortega/G1 Kevinho tatuou seu bordão 'Cê acredita' no braço — Foto: Tiago Alves/Divulgação  e Rodrigo Ortega/G1

Kevinho tatuou seu bordão 'Cê acredita' no braço — Foto: Tiago Alves/Divulgação e Rodrigo Ortega/G1

DJs viraram curadores de bordões

"'Cê acredita' foi um acerto", avalia Mano DJ, produtor de funk em SP. "Quando um MC vem ao estúdio, a gente já sabe que tem que pegar uma coisa que faça o público lembrar dele." Nesse esquema, o DJ registra as brincadeiras e vira um "curador de bordões" para pescar tiradas.

Outra cria do funk, essa já mais popular, usou bem uma frase para ajudar a espalhar e moldar sua imagem. Em 2014, Anitta soltou em um DVD uma pergunta que caiu no gosto dos fãs nas redes. Ela percebeu o poder do bordão debochado, poderoso e sensual, e desde então repete em shows:

"Vocês pensaram que eu não ia rebolar minha bunda hoje?"

Da piada ao cartão de visita

As funções do bordão na música e no humor são parecidas. Autor de uma tese sobre discurso do humor, Rony Petterson é PHD em Linguística do Texto e do Discurso pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Para ele, quando se repete muito um mesmo bordão, não há mais surpresa e o efeito humorístico tende a diminuir.

"Os bordões podem passar a marcadores de identidade ou a respostas prontas para qualquer pergunta", explica o pesquisador.

Seu Boneco (Lug de Paula) na capa de disco lançado pelo personagem em 1994 — Foto: Reprodução Seu Boneco (Lug de Paula) na capa de disco lançado pelo personagem em 1994 — Foto: Reprodução

Seu Boneco (Lug de Paula) na capa de disco lançado pelo personagem em 1994 — Foto: Reprodução

O personagem Seu Boneco, da "Escolhinha", é um bom exemplo. Quando ele se despede falando "aí eu vou pra galera", não é mais uma questão de ser engraçado. O bordão reforça características do personagem. "É um cartão de visita do comediante."

Mas e quando essas repetições são na música? "O bordão é o slogan do artista", resume Petterson. "Ajuda a marcar o artista dentro de um universo musical no qual estrelas aparecem e somem rapidamente."

Paulo Cursino já escreveu piadas para a TV ("Sai de baixo", "A grande Família") e cinema ("De pernas pro ar", "Fala sério, mãe", "O candidato honesto"). E defende o uso de um bom bordão:

"Criar um bom bordão é dificílimo. Público e crítica só aceitam o bordão que funciona e não existe ciência exata. Mistura sorte e talento."

Mas como sabemos que um bordão deu certo? "Dependendo da popularidade, os bordões podem virar uma gíria. A qualidade do bordão e o quanto sintetiza bem uma ideia é que fazem com que dê certo", diz Cursino.

Vai, INPI!

A meta de transformar bordões em marcas registradas é séria. Wesley Safadão conseguiu no início de 2019 no INPI o registro de uso exclusivo de "Vai, safadão" em shows e gravações. Outra marca aprovada foi do DJ Perera, forte do funk de SP, que registrou seu carimbo "DJ Perera, original".

Em 2017, a produtora GR6, que já foi ligada a Kevinho, tentou registra a marca "Cê acredita", mas o pedido não foi concedido e está arquivado. O mesmo aconteceu com um o "cebruthius" da MC Loma, que teve um pedido negado a uma mulher chamada Maria Aparecida da Silva Martins.

Jerry Smith quer a propriedade da marca "É o pique" e o INPI analisa o pedido. Já Simone e Simaria contestaram a tentativa de registrar a expressão "chora não, coleguinha" por uma produtora de TV, e agora pedem o registro em nome da empresa delas.

O DJ Yuri Martins pediu ao INPI o registro em seu nome da frase "Yuri Martins produziu? Bum! Mais uma que explodiu", que aparece em hits produzidos por ele.

"São tentativas de reforçar a proteção, já que o direito autoral não protege claramente o uso de expressões dentro das músicas, nem de seus títulos", diz Daniel Campello, advogado e diretor da empresa ORB Music.

"Com a popularização dos bordões, é uma forma de garantir a exclusividade na publicidade, por exemplo" Ele lembra que Kevinho usou seu "cê acredita" em anúncio recente de lanchonete da qual virou garoto-propaganda.

Pedido de registro da marca "chora não coleguinha" pela empresa de Simone e Simaria foi feito ao INPI e está em análise. É um dos bordões do pop brasileiro que podem virar marca registrada de verdade — Foto: Reprodução Pedido de registro da marca "chora não coleguinha" pela empresa de Simone e Simaria foi feito ao INPI e está em análise. É um dos bordões do pop brasileiro que podem virar marca registrada de verdade — Foto: Reprodução

Pedido de registro da marca "chora não coleguinha" pela empresa de Simone e Simaria foi feito ao INPI e está em análise. É um dos bordões do pop brasileiro que podem virar marca registrada de verdade — Foto: Reprodução

Compadre Washington de si mesmo

"O humor ajuda a alavancar a canção, ficar mais próximo dos fãs. Na rede social as pessoas transformam em hashtag. Coisas simples com efeitos que a gente não imagina", diz Léo Santana, autor de hits como "Rebolation" e "Crush blogueirinha" e de bordões como "faz o L" e "xiii, gente".

Ele está antenado nas hashtags, mas reconhece feras pré-internet. "Faz parte da cultura baiana. Não dá pra esquecer do 'sabe de nada, inocente', 'tchu thcu pá', 'ordinária'. Eu ouvia demais", lembra, citando bordões de Compadre Washingon, do É o Tchan.

Léo, ex-vocalista do Parangolé, teve ajuda dos bordões para consolidar sua carreira solo, e virou uma espécie de Compadre Washington de si mesmo: "Quando eu não faço um bordão no show, os fãs reclamam".

Três casos curiosos de bordões:

1 - 'Yukê', a falsa moeda e os falsos shows

Pabllo Vittar — Foto: Divulgação

Pabllo Vittar — Foto: Divulgação

Pabllo Vittar adora um "yukê". O grito surgiu da pergunta "e o quê?", para incentivar o público a cantar junto nos shows. A cantora repete tanto isso que os fãs criaram a grafia estilizada, com y, e deram o nome de Yukê a uma moeda falsa que ironiza as "fake news" da qual Pabllo é alvo.

Pabllo, nascida em São Luís (MA), tirou a expressão do seu amor por grupos de forró e arrocha, como a banda paraense Cia. do Calypso. "Mylla [Karvalho, ex-vocalista do grupo] solta um ‘e o quê?’ a cada 3 segundos. Eu amava isso! ", ela lembrou à rádio Jovem Pan.

O G1 foi saber de Mylla a origem do "e o quê". "Na época, a gente gravava as músicas no estúdio, mas como se fosse ao vivo. Primeiro gravava sem ninguém, e eu falava isso na gravação como se estivesse puxando o público, pedindo que eles cantassem. Depois levava umas 50 pessoas pro estúdio e multiplicava o som delas, representando a multidão".

Mylla diz que essas gravações "ao vivo em estúdio" aconteceram só nos primeiros discos do grupo, que surgiu em 2002. Ela saiu em 2008, e hoje se dedica à música evangélica em Palmas (TO). Mas, nos shows de verdade, continuou usando o "e o quê" para chamar o público.

2 - Parça, me passa seu bordão?

MC Cabelinho — Foto: Divulgação MC Cabelinho — Foto: Divulgação

MC Cabelinho — Foto: Divulgação

Outro caso de bordão "emprestado" ajudou a espalhar um novo nome do funk carioca. O MC Cabelinho foi a inspiração para uma frase do jogador de futebol Felipe Vizeu ao se apresentar ao Grêmio. "Vizeu tá aí", ele bradava.

A frase ficou tão marcante que o jogador teve que explicar de onde tirou. "É do meu amigo, o MC Cabelinho. É uma música dele chamada 'Zona sul', que fala: 'o Cabelinho tá onde? O Cabelinho tá aí'. Quando eu e o Paquetá estávamos na seleção sub-20, começamos a escutar", explicou.

3 - Anúncio: variei meu anúncio

MC Elvis é aposta da agência que levou MC Loma para SP — Foto: Divulgação / Facebook do cantor MC Elvis é aposta da agência que levou MC Loma para SP — Foto: Divulgação / Facebook do cantor

MC Elvis é aposta da agência que levou MC Loma para SP — Foto: Divulgação / Facebook do cantor

Além de MC Loma, um dos bordões mais populares no brega-funk é do MC Elvis: "Vem comigo, vem? Vem com Elvis". Ele até ficou conhecido como "o menino do vem"."Ter esse bordão diferente me ajudou muito, ficou melhor que outros MCs que só falavam o nome", ele explica.

O bordão é tão importante para ele e seu público que, quando resolveu variar, Elvis anunciou dentro de uma música. "Aí {DJ] MK, vamos mudar aquele carimbo lá, né? Vem com Elvis? Não. É o Elvis, minha vida", ele diz na introdução "Pouca transa", de fevereiro de 2019.

Em "Me bota", do dia 3 de maio, lá está o novo bordão: "É o Elvis minha vida..." Agora, ele diz que vai usar "minha vida" em músicas de passinho (mais agitadas). Mas, nos batidões românticos, não vai abandonar o carimbo antigo do "vem com Elvis".

"O 'vem com Elvis' foi muito marcante, viralizou demais em grupos de Zap", diz o cantor.

Bordões do pop brasileiro atual:

  • Kevinho - "Cê acredita?"
  • Simone e Simaria - "Chora não, coleguinha"
  • Loma - "Cebruthius" "Escama só de peixe, uaaarrr"
  • Jerry Smith - "É o pique!"
  • Pabllo Vittar - "Yukê?"
  • Anitta - "Vocês pensaram que eu não ia rebolar minha bunda hoje?"
  • Gusttavo Lima - "O embaixador chegou"
  • Gabriel Diniz - "Ó o swing do GD!"
  • Wesley Safadão - "Vai, safadão!"
  • Márcia Fellipe - "Vem Márcia Fellipe!"
  • Leo Santana -"Xi, gente"
  • MC WM - "WM de novo!"
  • Mc Lan - "Mc Lan novamente!"
  • Devinho Novaes - "Puuuxe, M10!"
  • MC Brinquedo - "Eu sou malandrão"
  • MC Pikachu - "Choque nelas!"
  • Mano Walter - "Chicote vai estralar!"
  • MC Elvis - "Vem comigo, vem? Vem com Elvis" / "É o Elvis, minha vida"
  • MC Cabelinho - "Cabelinho tá onde? Cabelinho tá aí"
  • DJs: Yuri Martins - "Yuri Martins produziu? Bum! Mais uma que explodiu"
  • Iasmin Turbininha - "Eu não quero mais ver Peppa, quero ouvir seu canal"
  • DJ Perera - "É o DJ Perera, o original!"

 

 

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