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Ex-bicheiro acumula dívida superior a R$ 8,7 bilhões

 
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Conhecido pela maneira violenta como cobrava seus devedores, João Arcanjo Ribeiro parece comprovar a máxima de que todo “bom cobrador é um mau pagador”. O ex-bicheiro tem uma dívida bilionária em impostos, acumulada durante sua atuação criminosa nos anos 90 e que até hoje sequer foi parcelada.

Ao todo, Arcanjo deve exatos R$ 8.710.825.132,73, conforme levantamento feito por A Gazeta com a utilização de dados da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN). Os números dão a Arcanjo o título de maior devedor de impostos à União em Mato Grosso.

Apesar de ser uma dívida com o governo federal, os valores em aberto têm efeito indireto no orçamento estadual, já que a arrecadação voltaria em forma de repasses a Mato Grosso. Para se ter uma ideia do tamanho do rombo causado pelo ex-bicheiro, basta levar em consideração que, caso ele pagasse tudo que deve, o dinheiro seria suficiente para suprir o deficit deste ano do Estado, cuja previsão aponta para uma diferença de R$ 1,7 bilhão entre receitas e despesas.

As dívidas tributárias de Arcanjo são rastros mostrando a trajetória que envolve políticos, empresários e até órgãos públicos ligados de certa forma ao homem que comandava o jogo do bicho em Mato Grosso e aos crimes dos quais é acusado. O “comendador”, como ficou conhecido, já foi condenado por homicídio, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e crimes contra o sistema financeiro.

A maior parte da dívida do ex-bicheiro está inscrita no registro de empresas de factoring, que davam fachada legal para que atuasse como agiota, emprestando grandes quantidades de dinheiro a juros muito elevados. Apenas em seu CPF, Arcanjo tem R$ 756 milhões de dívidas em impostos. Uma pequena empresa no nome dele, a J Arcanjo Ribeiro, deve R$ 607 milhões.

As empresas que têm Arcanjo como sócio também sonegaram impostos. A dívida delas juntas é de R$ 6.743.426.777,34. Além das factorings, outras firmas de Arcanjo que atuam em ramos diversos acumulam dívidas, como a JAR Projetos e Construções Civis Ltda, a Elma Eletricidade de Mato Grosso Ltda, a Rádio Club de Cuiabá Ltda e a Estacione Parking Serviços de Estacionamento de Veículos Ltda.

O primeiro shopping da cidade de Rondonópolis, o Rondon Plaza Shopping, é um dos grandes devedores da lista do ex-bicheiro. A Procuradoria da Fazenda Nacional cobra R$ 604 milhões em impostos.

Pelo sistema da PGFN não é possível consultar detalhes das dívidas. Os dados da Fazenda Nacional não levam em consideração dívidas que tenham sido, por algum motivo, suspensas judicialmente ou que sejam alvo de ação ajuizada para “discutir a natureza da obrigação ou o seu valor”, conforme portaria interna que regula o procedimento.

Em diversas ações judiciais, as empresas e o próprio Arcanjo passaram por execução fiscal com o objetivo de garantir o pagamento de dívidas tributárias. Há 17 anos o comendador teve os bens confiscados por conta das investigações deflagradas com a Operação Arca de Noé e a constatação em parte de que ele “adquiriu patrimônio com dinheiro do crime organizado”. O confisco só acabou em 2017, por decisão da Justiça Federal.

O volume da sonegação cometida pelo “comendador” pode ser muito maior caso seja levado em consideração a quantia devida também por pessoas próximas a ele, acusadas de participação na organização criminosa. Um dos grandes devedores é Giovanni Zem Rodrigues, genro de Arcanjo, que tem um débito total de R$ 1,8 bilhão.

Também consta como grande devedora Kely Arcanjo Ribeiro Zem, filha do ex-bicheiro, com R$ 603 milhões registrados. Luiz Alberto Dondo Gonçalves, ex-contador de Arcanjo, está na lista com R$ 1,2 bilhão, parte registrado como débito da Diego Contabilidade Ltda, empresa que pertence a Dondo. Outro genro de Arcanjo, Diniz Almeida Queiroz Júnior, dono da empresa CD Factoring Fomento Mercantil Ltda, deve R$ 1,3 bilhão em tributos. Diniz já foi condenado por “repetir” os métodos do sogro, segundo sentença proferida pelo juiz Julier Sebastião, magistrado que também condenou Arcanjo.

Também possuem dívidas Christiany Josefa Ribeiro Queiroz, filha de Arcanjo, Sílvia Chirata Arcanjo Ribeiro, ex-mulher do comendador; o uruguaio Adolfo Oscar Olivero Sesini, homem de confiança do ex-bicheiro; Edson Marques de Freitas, ex-garçom do cassino Estância 21 e acusado de ser laranja do chefe. 

Crimes de grande repercussão 

O crime de maior repercussão atribuído a Arcanjo é o assassinato do empresário Domingos Sávio Brandão de Lima Júnior, dono do jornal Folha do Estado, em 2002. Apontado como mandante, Arcanjo foi condenado a 19 anos de prisão em regime fechado pelo Tribunal do Júri, na Comarca de Cuiabá, em 2013. Ex-bicheiro também foi condenado a 44 anos e dois meses de prisão em 2015 pela morte do empresário Rivelino Jacques Brunini, Fauze Rachid Jaudy, além da tentativa de homicídio contra Gisleno Fernandes. 

Arca de Noé 

A Arca de Noé é considerada a maior operação de Mato Grosso e investigou vários crimes envolvendo a Assembleia Legislativa de Mato Grosso, através dos exdeputados José Riva e Humberto Bosaipo. Os supostos crimes teriam ocorrido entre 2002 e 2007 e foram denunciados pelo MPE. Durante a deflagração da operação João Arcanjo Ribeiro fugiu para o exterior. Em 2006 foi extraditado para o Brasil em 2006 e permaneceu 15 anos preso. 

Outro lado 

A reportagem entrou em contato com o escritório do advogado de Arcanjo, Zaid Arbid, para saber se há alguma perspectiva de negociação ou pagamento dos impostos devidos. Até o fechamento desta edição, não houve resposta. Em uma das últimas entrevistas de Arbid, o advogado ressaltou que o ex-bicheiro é empresário do ramo de factoring e com dívidas a receber de antigos clientes.


Gazeta Digital

 

 

 

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