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Agências de pesquisa dos EUA sofrem com a paralisação do governo americano

As missões espaciais, por exemplo, continuam a coletar dados, mas milhares de pesquisadores federais são obrigados a ficar em casa sem pagamento.

 
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Desde o início da paralisação parcial do governo americano, no dia 22 de dezembro, algumas agências de pesquisa americanas — como a Fundação Nacional de Ciência (NSF, em inglês) e até a própria Nasa, a agência espacial dos EUA, vêm sofrendo com a falta de fundos.

Em duas matérias, publicadas em dezembro passado e na última sexta (4), a revista científica 'Nature', uma das mais importantes do mundo, traçou um panorama de como a suspensão do debate orçamentário tem afetado incentivos à pesquisa no país.

A paralisação atual do governo americano foi a terceira de 2018. Há pouco sinal de progresso nas negociações de orçamento entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e os democratas no Congresso americano, que não aprovaram a verba de US$ 5,7 bilhões (cerca de R$ 21,3 bilhões) para a construção de um muro na fronteira com o México. Trump se recusou a sancionar qualquer lei orçamentária que não incluísse os recursos.

Por causa do 'shutdown', cerca de 800 mil funcionários federais estão sem poder trabalhar nem receber pagamento, diz a Nature. Só podem exercer atividades aqueles cujo trabalho é considerado essencial para proteger a vida e a propriedade. Esses, no entanto, precisam trabalhar sem receber — e apesar de o Congresso ter, historicamente, aprovado pagamentos retroativos quando paralisações terminam, eles não estão garantidos.

Os funcionários considerados essenciais também não puderam tirar férias, mesmo que já tivessem sido agendadas. A quantidade de pessoas obrigadas a ficar em casa varia de acordo com a agência, dependendo de quais atividades o governo julga essenciais.

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Algumas agências escaparam da paralisação — como, por exemplo, os Institutos Nacionais de Saúde (NIH, em inglês) e o Departamento de Energia, além do Centro de Controle de Doenças (CDC, em inglês). Nesses casos, os legisladores já haviam aprovado recursos até 30 de setembro deste ano, o fim do ciclo orçamentário de 2019. Isso permite que elas continuem operando normalmente, com uma exceção: o programa de pesquisa de resíduos tóxicos do NIH, diz a Nature, que não tinha sido incluído no orçamento.

Na Nasa, o 'shutdown' ameaça interromper preparações para os próximos lançamentos de aeronaves, ainda que as missões espaciais continuem a explorar o Sistema Solar. A sonda InSight, que pousou em Marte em novembro, está enviando dados à Terra, e as imagens estão sendo postadas no site da agência espacial.

As missões Osiris-Rex e New Horizons também devem continuar funcionando, segundo a Nature.

Mas, se o telescópio Hubble tiver problemas técnicos, como teve em outubro passado, tentativas de resolvê-los provavelmente terão que ser adiadas, porque equipes cruciais da agência foram obrigadas a permanecer em casa.

Insight Mars registra a primeira 'selfie' no planeta vermelho — Foto: Nasa/JPL-Caltech Insight Mars registra a primeira 'selfie' no planeta vermelho — Foto: Nasa/JPL-Caltech

Insight Mars registra a primeira 'selfie' no planeta vermelho — Foto: Nasa/JPL-Caltech

Sem trabalhar

Já na Fundação Nacional de Ciência, a NSF, apenas 60 dos cerca de 2 mil funcionários são considerados "essenciais" e foram mantidos no trabalho. Dos 11,4 mil empregados da Administração Oceânica e Atmosférica (Noaa, em inglês), 5,5 mil ainda estão trabalhando, muitos deles na previsão do tempo.

Na FDA, espécie de Anvisa americana, cerca de 59% podem trabalhar durante o 'shutdown' — em parte porque cerca de um quarto do orçamento da agência vem de honorários pagos por empresas que submetem medicamentos ou dispositivos médicos para aprovação.

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Mesmo assim, a agência não pode, por lei, receber novos honorários até que o governo reabra. Se a paralisação continuar por muito mais tempo, a FDA pode ser obrigada a mandar mais funcionários para casa, diz Ladd Wiley, diretor executivo da "Aliança para uma FDA mais forte", no estado de Maryland.

Outras agências vêm tentando truques de contabilidade para minimizar as interrupções. A Agência de Proteção Ambiental (EPA, em inglês) tinha dinheiro suficiente para continuar operando até 28 de dezembro, mas já obrigou 14 mil funcionários a ficarem em casa, deixando apenas 753 "essenciais" no trabalho. Isso pode prejudicar a capacidade da agência de cumprir prazos legais referentes a avaliações de risco de cerca de 40 produtos químicos.

Pesquisas prejudicadas

Trump fala com jornalistas após se reunir com congressistas para discutir a paralisação do governo e segurança de fronteira — Foto: Carlos Barria/Reuters Trump fala com jornalistas após se reunir com congressistas para discutir a paralisação do governo e segurança de fronteira — Foto: Carlos Barria/Reuters

Trump fala com jornalistas após se reunir com congressistas para discutir a paralisação do governo e segurança de fronteira — Foto: Carlos Barria/Reuters

A pesquisadora americana Karen Osborn, do Instituto Smithsonian, por exemplo, deveria estar realizando estudos de campo nas Ilhas Turks e Caicos, no Caribe. Ela viajaria para catalogar espécies que vivem em piscinas conectadas ao oceano por cavernas submersas em grandes profundidades. Mas, por causa da paralisação, ela não pôde fazer a viagem, que estava planejada há seis meses. Também não pode acessar o próprio laboratório ou olhar os e-mails de trabalho.

Os efeitos na ciência, depois de duas semanas de paralisação, estão começando a se acumular, diz a Nature, deixando muitos pesquisadores preocupados e desmoralizados. A NSF suspendeu análises de concessão de financiamentos indefinidamente e deve adiar bancas para seleção de bolsistas de pós-doutorado já marcadas para o início deste mês. A Administração Oceânica e Atmosférica retirou do ar bases de dados sobre tempo e clima bastante utilizadas.

"Isso está prejudicando a nossa capacidade de fazer propostas a jovens cientistas e dizer a eles que este é o lugar para se estar", diz um pesquisador do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA, em inglês), que pediu anonimidade porque não está autorizado a falar com a imprensa. Ele está tentando contratar pessoas para alguns cargos em seu laboratório — incluindo um com data de início em 21 de janeiro — mas não pode fazer ofertas finais a candidatos até o governo reabrir.

Contas a pagar

Outros pesquisadores enfrentam preocupações mais existenciais. Mesmo que o Congresso aprove o pagamento retroativo, é pouco conforto para funcionários que tentam sobreviver sem salário.

"Hoje eu tive que pedir seguro-desemprego", tuitou na última quinta (3) Leslie Rissler, bióloga evolucionária e diretora de programa de pesquisa na NSF. "Essa paralisação é ridícula e está afetando desnecessariamente milhares de funcionários federais e suas famílias. Desejando a todos eles, e a esse país, dias melhores à frente", diz o tuíte.

Algumas instituições financeiras que atendem funcionários do governo estão divulgando programas especiais de ajuda.

Karen Osborn, a bióloga marinha do Smithsonian, já desistiu de viajar às Ilhas Turks e Caicos. Agora, ela começa a se preocupar se o 'shutdown' vai continuar a ponto de interferir em uma viagem ainda mais cara e difícil, do ponto de vista logístico, para Cabo Verde, no noroeste da África, que ela planejou para o início de fevereiro.

"Eu temo que essa possa ser abandonada", diz Osborn, que tenta se manter positiva. "Eu já pensei em procurar emprego em uma universidade, onde as coisas são mais estáveis. Mas espero que esse clima político divisivo não dure muito tempo. Espero que trabalhar para o governo volte a ser uma grande oportunidade".

 

 

 

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