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Jovem cientista brasileira ajuda a criar plataforma mundial sobre alimentação

Victoria de Quadros colabora no desenvolvimento de um banco de dados inédito sobre o consumo global de alimentos em nível individual.

 

Na semana em que as Nações Unidas divulgou que 821 milhões de pessoas no mundo passam fome e que, em contrapartida, outras 672 milhões estão obesas, o trabalho realizado por Victoria de Quadros assume um caráter de extrema importância: identificar e disponibilizar publicamente estatísticas científicas sobre o consumo mundial de alimentos.

Victoria tem 28 anos, é natural de Campinas (SP), e é mestre em Nutrição Humana e Biologia Molecular. Há um ano e meio ela trabalha na Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), em Roma.

Atualmente, em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a jovem cientista brasileira colabora no desenvolvimento de um banco de dados (GIFT , em inglês) inédito sobre o consumo global de alimentos em nível individual.

“É importante saber o que as pessoas comem porque é o primeiro passo para saber se a alimentação é saudável ou não: por exemplo, quando você vai a um nutricionista a primeira coisa que ele pergunta é o que você come. A partir disso, ele pode ver se existem problemas na alimentação e identificar como resolver esses problemas. É a mesma coisa em nível de população, se você sabe o que as pessoas de um país ou região comem, você também pode ver se existem problemas com essa alimentação e quais tipos de políticas alimentares podem ser implementadas para resolver esses problemas”, explica.

Ferramenta global na luta contra a fome

Victoria defende que seu trabalho é o alicerce científico para que as ações de combate à fome sejam bem sucedidas de acordo com os desafios específicos de cada região.

“Eu acho que é importante trabalhar para resolver esse problema e eu sei que é muito importante esse trabalho técnico de ter bases científicas e dados disponíveis para poder pensar as políticas baseadas em dados científicos e não em outras informações”, diz.

E acrescenta: “Em um certo nível sim, é a base da luta [contra a fome], achar os dados que são importantes para resolver os problemas e, inclusive, nós também trabalhamos e estamos começando a trabalhar com mais países para mostrar justamente como eles podem usar esses tipos de dados para uma finalidade útil para o país”.

Projeto Global

A plataforma é pensada sobretudo para que os dados sejam aplicados às políticas

alimentares e nutricionais dos países em desenvolvimento que possuem menos dados desse tipo – e que raramente são públicos – e, por outro lado, são os países que mais necessitam ter acesso a esse tipo de dados.

“Esse é um trabalho importante porque esse é o primeiro banco de dados que tem esse objetivo de disponibilizar e publicar dados desse tipo de consumo alimentar em nível mundial para diferentes países do mundo. Então, a gente conta com o apoio dos países e instituições para transformá-lo em uma ferramenta global”, assinala Victoria.

Precisão científica

Victoria explica que, normalmente, as informações disponíveis sobre o que as pessoas comem em um país se baseiam em estimativas e estatísticas muito amplas. Porém, defende a cientista, “é importante também saber o que as pessoas estão realmente comendo”. E explica: “Nesse banco de dados há informação sobre a quantidade de alimento que as pessoas realmente consumiram, inclusive pessoas diferentes em uma mesma família. Por exemplo, se você sabe que uma família consumiu um pedaço de carne, a partir desse tipo de dado você pode saber quem consumiu esse pedaço de carne, se foi a criança, a mãe ou o pai. É um dado bem específico em nível individual”, assinala.

Uso da plataforma no Brasil

Em um país das dimensões do Brasil, onde as dietas variam de acordo com a região, os dados podem ser cruzados para ajudar a identificar os melhores alimentos em caso de deficiências nutricionais.

“No Brasil, poderia ser útil para identificar alimentos que ajudem a combater a deficiência de micronutrientes. Por exemplo, se você sabe o quanto uma criança em uma região do Brasil que é carente de vitamina A consumiu de um determinado alimento, e você sabe o que uma criança em outra região do Brasil que não é carente em vitamina A também consumiu. A partir dessa comparação, você pode identificar alimentos que podem ser consumidos e podem ser estimulados para o consumo para combater essa deficiência. Podem ser

alimentos como banana, mamão ou abóbora, que são ricos em vitamina A”, precisa Victoria.

Ao se conhecer quadro nutricional individual de um país, isso pode ter efeitos diretos inclusive na produção de alimentos. “É possível identificar quais são os cultivares que são mais ricos em nutrientes ou que contribuem mais para a ingestão de vitaminas e minerais, e estimular a produção desses cultivares nas regiões onde tem carência”.

Consulta simplificada à plataforma

O público-alvo da plataforma GIFT é amplo, voltado principalmente para quem precisa planejar políticas alimentares. A consulta foi simplificada, como afirma Victoria: “Por um lado temos os gráficos da plataforma que foram pensados para serem bem fáceis de entender, mesmo para quem não tem formação científica muito ampla, e por outro, os pesquisadores ou as pessoas mais especializadas que querem fazer análises mais sofisticadas, podem baixar os dados gratuitamente na plataforma”.

Victoria conta que antes de se mudar para a Itália nunca havia pensado em trabalhar no sistema das Nações Unidas. Ao perceber que havia as qualificações para uma vaga, candidatou-se e foi chamada para um entrevista. Aprovada, começou a trabalhar como estagiária até ser contratada como consultora.

“É uma possibilidade que raramente as pessoas, mesmo os professores, falam para gente que existe. Acho que muita gente não sabe, mas é uma possibilidade real porque existe a necessidade para o trabalho técnico de terem cientistas especializados e tem também um interesse muito grande em ter cientistas de países em desenvolvimento, então é uma grande oportunidade também para os brasileiros e as brasileiras. Nós somos muito qualificados no Brasil e talvez a gente não perceba isso até a gente ir para fora e se comparar com outras nacionalidades”, afirma.

 

 

 

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