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90% dos produtos vendidos na feira livre de São Felix do Araguaia têm origem na agricultura familiar

 
Em São Félix do Araguaia 90% dos produtos comercializados na feira livre quinzenal são produzidos nos assentamentos que ocupam um percentual de 8% de seu território. Segundo o INCRA, o município conta com 10 projetos de assentamento e 1474 famílias assentadas numa área de 135.216 Ha. 

Na Região Xingu/Araguaia as feiras livres são os espaços tradicionais onde os produtos da agricultura familiar podem ser acessados pela população. A produção é muito diversificada e vai desde as frutas sazonais disponíveis na região como a mangaba, murici, cagaita, pequi, bacaba, goiaba, caju, manga, buriti, babaçu para produzir farinha e óleo, até aquelas que necessitam um cultivo mais elaborado como maracujá, banana, melancia, côco da bahia, ata, graviola, acerola, laranja, mexerica, cana e mamão. Das frutas se fazem as polpas e as compotas de doces. Para além das frutíferas, observamos uma grande variedade de produtos como abóboras, mandioca, milho, gergelim, batata doce e carás. Os ovos e galinha caipira, o leite e seus derivados, a rapadura e a farinha de mandioca.  
Banca onde a Dona Raimunda vende a sua produção na Feira Municipal de São Félix do Araguaia. Foto: Liebe Lima/AXA


Para Fernando Schneider, da Comissão Pastoral da Terra (CPT Araguaia), o principal foco da produção nos assentamentos está na segurança alimentar das famílias que comercializam os excedentes nas feiras livres. O plantio da mandioca está no topo da cadeia na produção agrícola do município e por ser um produto característico traz consigo a marca da agricultura familiar.
Local da Feira Municipal de São Félix do Araguaia. Foto: Liebe Lima/AXA

  “Lá em casa nós produzimos farinha, mas não podemos vender para os supermercados porque não temos o selo” com essas palavras a agricultora e coletora de sementes Cleusa Nunes do PA Macife, em Bom Jesus do Araguaia, MT, ilustra a dificuldade que encontra para comercializar sua produção. A burocratização e crescimento no nível de exigências das leis de vigilância sanitária, somado à falta de Assistência Técnica e mecanismos político-sociais, criou-se uma lacuna entre o homem do campo que lavra a terra com sua família nas profundezas do Brasil e os meios de produção do agronegócio. Tais exigências inviabilizam a ampla comercialização e restringe os produtos da agricultura familiar às feiras livres. De um lado temos uma grande riqueza de alimentos com potencial para serem produzidos localmente, de outro, as gôndolas dos supermercados regionais sendo abastecidas pelo CEASA de Goiânia.
 
Banca de produtos do Assentamento Tia Irene na Mostra Socioambiental do Araguaia que aconteceu na Feira Municipal de São Félix do Araguaia em Junho de 2018. Foto: Liebe Lima/AXA

  As famílias que trabalham com agricultura nos assentamentos trazem consigo profundos conhecimentos e tecnologias que a experiência lhes proporciona. Conhecem as sementes, as plantas que curam, os sinais do tempo, as técnicas de plantio, a lida com o gado e tantos outros saberes. Mas a linguagem técnica das gestões burocráticas que as instâncias do sistema lhes exigem é uma língua estrangeira que cabe ao próprio estado que as criou resolvê-las. Ao estado cabe buscar soluções que sejam para toda a sociedade. Soluções que excluem não são soluções.

Em 13 de junho de 2018 a Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei PL 4576/2016 que normatiza a venda de produtos orgânicos, permitindo a venda direta apenas em feiras livres ou em propriedades particulares. Proibindo a venda nos supermercados e restringindo um espaço de comercialização já consolidado dos produtos orgânicos. Essa medida está na contramão das reivindicações pela ampliação dos espaços de comercialização de alimentos saudáveis para toda a população. O PL vai de encontro ao que foi chamado de “Pacote do Veneno”, votado paralelamente, para liberar a ampliação de agrotóxicos proibidos em outros países e que, se aprovado, passarão a ser despejados em nossas mesas.

A violência estruturada através de leis que nos impõe uma dieta de envenenamento permanente em doses cada vez maiores, precisa ser revista pela sociedade com olhos de quem pode mudar o jogo e ajustar a jornada. Para a quebra deste paradigma a fábula da Branca de Neve nos tem sido contada desde muito cedo e sabemos como nos fazem consumir a maçã envenenada simplesmente embelezando-a. O que inexoravelmente resulta na morte da mocinha. A única diferença é que a ela ninguém avisou e nós temos sabido, mas, no entanto, a consciência permanece adormecida e incapaz de recusar a maçã.

 
Banca com Produtos da Agricultura Familiar na Feira de São Félix do Araguaia. Foto: Liebe Lima/AXA

A opção por abastecer a sua casa com alimentos produzidos localmente e sem a presença de agrotóxicos nas feiras livres, trará benefícios para a saúde da sua família e também beneficiará a economia regional que deixará de pagar ao CEASA de Goiânia e pagará para quem produz na região, vende na região e compra na região.

Este ciclo de abundância está no cardápio. Você pode escolher!

 

 

 

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