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Antônio Fagundes diz que redes sociais '''emburrecem''' as pessoas e que hoje '''debate inteligente é revolucionário'''

Veja o que ator aprendeu ao debater peça com plateia sem as palavras de ordem e a agressão da internet. Ele analisa Lei Rouanet, lembra Hair com nudez em 1969 e vê moral do século 19 hoje.

 
 -  Da esquerda: Alexandra Martins, Bruno Fagundes, Antônio Fagundes, Mara Carvalho, Fábio Espósito e Ilana Kaplan em  Baixa terapia   Foto: Divulgação
Da esquerda: Alexandra Martins, Bruno Fagundes, Antônio Fagundes, Mara Carvalho, Fábio Espósito e Ilana Kaplan em Baixa terapia Foto: Divulgação

Toda noite aos finais de semana, Antônio Fagundes faz uma coisa arriscada: abre um debate entre 700 desconhecidos sobre relações de gênero, família e questões morais espinhosas. No fim da peça "Baixa terapia", os espectadores são chamados para a conversa. Será que ainda é possível usar a arte para promover discussões civilizadas?

O ator ainda acha possível, mas nota as dificuldades. A comédia com final desconcertante estreou em março, com sessões cheias até hoje. Na noite presenciada pelo G1, uma jovem saiu chorando, horrorizada, e uma senhora elogiou, maravilhada. Mas a surpresa da noite foi o esforço por uma discussão aberta e não agressiva.

A partir desta e de outras experiências, o ator e produtor de 68 anos opinou sobre relação entre artistas e público e o mercado cultural hoje. A entrevista é dividida em três partes:

  1. No vídeo acima, ele explica porque acredita no debate a partir da arte numa era em que redes sociais nos 'emburrecem'.
  2. No vídeo abaixo, ele lembra a 'revolução' dos anos 60, como no musical 'Hair', com nudez no palco. Para ele, tentar censurar nudez na arte hoje é voltar à 'moral do século 19'.
  3. No terceiro vídeo, ele explica porque defende investimento cultural do Estado, mas não usa Lei Rouanet. Meta: 'Entrar em cena e falar o que quiser sem ninguém encher meu saco'.

Após os vídeos, leia a entrevista completa.

Antônio Fagundes lembra teatro dos anos 60, quando musical 'Hair' levou nudez ao palco, e 'moral do século 19' atual

Antônio Fagundes lembra teatro dos anos 60, quando musical 'Hair' levou nudez ao palco, e 'moral do século 19' atual

Antônio Fagundes explica porque defende que governo pague por cultura, mas não usa estas verbas

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G1 - Sei que você faz essa conversa sobre as peças há muitos anos. Mas como tem sido a experiência em 'Baixa terapia', com temas difíceis?

Antônio Fagundes - Acho que qualquer boa peça de teatro tem que ser transformadora. Alguma coisa ela tem que tocar na alma e na inteligência do espectador. A gente percebeu ao longo dos espetáculos que atingiu esse objetivo um pouco mais profundamente. O "Baixa terapia" mexe mais do que cinco minutos com a cabeça das pessoas. A gente percebe isso no bate-papo. Até pelo final surpreendente, que nós não vamos contar, as pessoas acabam se identificando, se colocando, querendo discutir, saber estatísticas, soluções, caminhos, aprovando ou não as posturas.

G1 - Nos últimos meses, temos visto ânimos acirrados em relação a temas morais e culturais. Isso tem se refletido nos debates?

"Li outro dia uma coisa interessante. Quando as pessoas vêm para o debate com palavras de ordem, é porque elas não têm nenhum conteúdo para discutir. Numa verdadeira discussão, num verdadeiro diálogo, você percebe que as coisas têm diversas facetas, e que mesmo as suas posições mais radicais podem sofrer um ou outro balanço, se você submeter isso à sua análise crítica profunda e sincera."

Se você vier com uma palavra de ordem, acabou o bate-papo, você não tem mais possibilidade de enxergar nada à sua frente, porque a sua palavra de ordem está te cegando. O que a gente percebe no nosso espetáculo é que, por ser uma comédia hilariante, que faz a plateia uivar de rir durante uma hora e meia, e ter uma reviravolta que desperta a inteligência do espectador, essas palavras de ordem todas caem por terra, e as pessoas acabam se abrindo para a conversa, para a discussão.

E mesmo aqueles que no fim querem levantar uma palavra de ordem acabam percebendo que têm outros lados na questão que podem ser analisados também. Então eu acho que essa época que nós estamos vivendo só vai acabar quando as pessoas se dispuserem a discutir. Mas para discutir você tem que saber um pouco mais do que uma palavra de ordem.

G1 - Você não é muito da internet. Já eu, pelo meu trabalho, fico online direto. O que tenho visto nas últimas semanas me desanima em relação ao diálogo. Mas o que vi no final da peça deu até uma esperança.

"A gente brinca que é revolucionário. Agora revolucionário não é você usar aquele aparelhinho, não é fazer parte de Instagram, Facebook, o que for. É você conversar olho no olho, abrir a possibilidade do diálogo inteligente. Porque aquele aparelhinho lá está emburrecendo as pessoas em alguns momentos."

G1 - Mesmo antes do debate, vi reações de todo tipo logo que a peça acaba.

Antônio Fagundes - Nós elencamos outro dia 25 temas importantes das relações interpessoais que a peça aborda. A peça fala de vício, de suicídio, de ciúmes, de jogo, de alcoolismo, criação de filhos, relação dos pais, e vai embora. Mas o que é interessante é que a forma cômica de levantar estes problemas talvez camufle para algumas pessoas a seriedade desses problemas.

Mas a gente percebe depois neste bate-papo que, mesmo sendo cômico, incomoda algumas pessoas o reconhecimento destes problemas durante o espetáculo. Mas, na verdade, quando você ri de um problema, você já tem 90% da solução dele.

G1 - O fato de as pessoas estarem ali juntas fisicamente pode ajudar a romper essas bolhas da internet?

"O americano chama isso de "egocasting". Você só se cerca das coisas que te fazem bem. É claro que essa pessoa, daqui a algum tempo, vai estar beirando o suicídio. Porque só as coisas que te fazem bem te emburrecem. Não te criam nenhum problema. Você não tem nada a acrescentar, jamais se modificará, e talvez você perpetue os erros da sua vida até um limite sem fim. "

Então, você tem que abrir a possibilidade do diálogo, da controvérsia, mas não da forma como as pessoas estão fazendo, na agressão. Aceitar o outro, aceitar a diferença, a opinião contrária, porque talvez você mude a sua e talvez nessa mudança haja um crescimento. Realmente eu sinto, uma pena, que a internet, que é um veículo extraordinário, esteja sendo usado só nesse sentido.

Da esquerda: Alexandra Martins, Bruno Fagundes, Antônio Fagundes, Mara Carvalho, Fábio Espósito e Ilana Kaplan em 'Baixa terapia' (Foto: Divulgação) Da esquerda: Alexandra Martins, Bruno Fagundes, Antônio Fagundes, Mara Carvalho, Fábio Espósito e Ilana Kaplan em 'Baixa terapia' (Foto: Divulgação)

Da esquerda: Alexandra Martins, Bruno Fagundes, Antônio Fagundes, Mara Carvalho, Fábio Espósito e Ilana Kaplan em 'Baixa terapia' (Foto: Divulgação)

G1 - A gente fala às vezes como se fosse uma coisa nova a controvérsia que a arte provoca. Mas na sua carreira tem coisas como "Hair".

Antônio Fagundes - A experiência mais revolucionária que eu fiz foi o Teatro de Arena, antes do "Hair". Era um teatro extremamente político na sua proposta dramatúrgica, de participação da realidade brasileira, mais efetivo politicamente do que o "Hair", um movimento que não deixou muitas marcas para a gente aqui no Brasil. O Teatro de Arena deixou mais.

Mas era uma época de contestação, de discussão acirrada de ideias. As pessoas tinham posturas realmente fortes, mas ainda se conversava. O público ainda tinha interesse de ir ao teatro para ouvir ideias novas, em ver espetáculos que sacudissem o seu cotidiano. Taí um "Rei da Vela" que está sendo remontado 50 anos depois. Nós tínhamos uma participação mais ativa da sociedade como um todo. Talvez um dos resquícios dessa nova tecnologia tenha feito com que a gente se afastasse um pouco.

G1 - Eu lembrei de "Hair" porque tinha a coisa da nudez, que hoje virou tema de polêmica e até pedido de censura em exposições.

Antônio Fagundes - Cinquenta anos depois nós estamos voltando? Uma coisa que nós já tínhamos resolvido em 1967, 68. Teve um primeiro choque, um primeiro entendimento do que aquilo significava, em termo de liberdade, de postura artística.

"E aquilo evoluiu até que 50 anos depois nós retrocedemos. E retrocedemos não só 50. Nós retrocedemos aí uns 100. Nós estamos com um tipo de moral hoje, algumas pessoas que se recusam a discutir, um tipo de moral do século 19."

G1 - Sobre sua experiência de produtor, outro tema que tem sido colocado com muito extremismo e desinformação é o da Lei Rouanet. Você não usa em suas produções. Por quê?

Antônio Fagundes - Tenho começado a clarear minha postura sobre fazer sempre sem patrocínio. Não acho que o governo deva se isolar dessa política. O governo tem obrigação de usar grande parte do imposto que recolhe da sociedade para aplicar principalmente em cultura. Educação e propagação de cultura. Quando a gente vê o país no estágio em que está, a gente sabe que é falta de educação. Se o governo deixar de aplicar em cultura, como deixa, porque a verba da cultura é de 0,43% da dotação orçamentária, você vê as coisas acontecendo erradas por causa disso.

Mas aí eu não estou falando só de teatro. Estou falando de pinacotecas, de patrimônio histórico, dança, circo, sinfônicas... A cultura geral de um país. Um país sem cultura realmente vai ter problemas a curto prazo. Então eu acho que o governo tem essa obrigação. Mas talvez não da forma como ele usa essa lei de incentivo.

"A lei de incentivo da forma como está sendo usada é o que eu chamo de uma lei nem-nem. Nem é política cultural, porque o governo não faz nada a não ser abrir mão de um imposto. E também não é lei de mercado, porque ela não joga o produto cultura no mercado. Ela joga na mão de gerentes de marketing, que vão apoiar ou não aquele produto. "

Então você acaba não formando público, acaba ficando pouco tempo em cartaz, porque já não interessa mais você ficar em cartaz, interessa você ter um novo patrocínio. Então deixamos de fazer teatro e passamos a ser arrecadadores - a lei te estimula a fazer isso - e não é uma política cultural. Por isso sou contra.

G1 - Qual tem sido o resultado da sua opção em relação ao patrocínio?

Antônio Fagundes - Quando é sucesso é fácil. Porque deu certo, pagou, todo mundo está ganhando bem, a plateia está lotada. É isso que nós queremos. Nós já tivemos 60 mil espectadores. Fizemos mais de 100 espetáculos. Vamos continuar com a temporada até 10 de dezembro, e continuamos no ano que vem até 29 de abril. Não teria nada a falar.

A gente tem a falar quando não dá certo. E aí é que é o problema. Quando não tem público, aí realmente você perde dinheiro. A gente às vezes perde em um, ganha na outra, vai se equilibrando, e vai fazendo uma média de relação com o público. A minha média nos últimos dez anos tem sido bastante positiva.

G1 - O que te leva, que vontade te leva a ser um produtor independente além de ator?

Antônio Fagundes - É essa ansiedade que eu tenho de comunicar as coisas que quero, da forma que eu quero, sem interferências, com liberdade. E essa liberdade inclui uma liberdade econômica. Se eu estou preso a um edital, a uma política cultural, qualquer que ela seja, estou preso a uma linha, a um caminho. "Esse pode, esse não pode." "Esse tem palavrão, eu não quero." "Aquele tem nudez, eu não quero." "Aquele fala de política, mas eu não concordo e não quero." Então eu quero ter essa liberdade. Como artista, eu quero ter essa liberdade. Para ter essa liberdade eu preciso ser dono dos meios de produção.

G1 - O quão importante é essa liberdade?

Antonio Fagundes - A liberdade tem muitas definições. A gente não consegue entender muito bem o significado dela unicamente, solto. O que é ser livre hoje em dia? Hoje não existe liberdade. A liberdade não existe nem no sistema mais democrático do mundo.

"Essa liberdade que estou discutindo é pequenininha. É poder entrar em cena e falar o que eu quiser sem ninguém encher meu saco. "

Sessão de 'Baixa terapia' (Foto: Divulgação) Sessão de 'Baixa terapia' (Foto: Divulgação)

Sessão de 'Baixa terapia' (Foto: Divulgação)

 

 

 

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