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Daniela Thomas fala da polêmica ao retratar escravidão e violência sexual em '''Vazante''': '''Não é um filme militante'''

Diretora do longa que foi criticado falou ao G1 sobre críticas ao trabalho. Ela diz lamentar que o trabalho não seja o que militantes gostariam de ver.

 
 -  Cena do longa-metragem  Vazante , de Daniela Thomas  Foto: Ricardo Telles/Divulgação
Cena do longa-metragem Vazante , de Daniela Thomas Foto: Ricardo Telles/Divulgação

"Vejo que ele não é exatamente o filme como a militância pela representatividade do negro no audiovisual gostaria de ver. Eu lamento."

Em "Vazante", a diretora Daniela Thomas conta uma história que se passa em 1821. Ali está um retrato da escravidão e da violência contra a mulher (um homem com cerca de 40 anos se casa com uma adolescente de 12).

Depois de críticas por parte da plateia em um debate no Festival de Brasília, em setembro, a cineasta convive com vários comentários negativos acusando o filme de retratar superficialmente a escravidão e os personagens negros. "Não foi minha intenção", afirma ela ao G1.

Assista, acima, à entrevista com Daniela Thomas falando sobre 'Vazante'.

Hoje, Daniela Thomas admite que "não estava preparada" para a abordagem. "Vazante", que entrou em cartaz nesta semana, é o primeiro filme-solo de Daniela Thomas, após parcerias com Walter Salles e Felipe Hirsch.

Na conversa, Daniela, filha de Ziraldo e responsável pela cerimônia de abertura da Olimpíada no Rio, diz que não curte o termo "lugar de fala" – o conceito prevê que pessoas ou grupos alvos de preconceito devem falar por si, sem mediação ou interferência:

"Lugar de fala leva ao 'filme selfie'. Não quero ficar falando sozinha, me apartar de pessoas que amo porque a gente não tem a mesma cor e não está falando do mesmo lugar".

Leia os principais trechos da entrevista:

Cena do longa-metragem 'Vazante', de Daniela Thomas (Foto: Ricardo Telles/Divulgação) Cena do longa-metragem 'Vazante', de Daniela Thomas (Foto: Ricardo Telles/Divulgação)

Cena do longa-metragem 'Vazante', de Daniela Thomas (Foto: Ricardo Telles/Divulgação)

G1 – Como você responde a quem diz o filme mostra de modo superficial os personagens negros e faz uma abordagem enviesada da escravidão?

Daniela Thomas – Não foi minha intenção e não acredito nisso. Mas ouvi, muito vocalmente e expressivamente, que isso é o caso. A partir de algumas pessoas que fizeram essa leitura num determinado lugar, num determinado momento.

Eu desafio – com graça, com felicidade – as pessoas a verem o filme sobre um grupo de seres humanos que moravam nesse lugar, nesse momento, contados a partir de variáveis pontos de vista. O filme não tem exatamente protagonistas, não é convencional. Tentei mesmo realizar um filme em que cada pessoa que aparecesse tomasse o filme para si.

"Vejo que ele não é exatamente o filme como a militância pela representatividade do negro no audiovisual gostaria de ver. Eu lamento. Seria maravilhoso se, além de tudo – de ter realizado um bom filme –, ele ainda servisse a essa causa que eu tanto amo."

Luto por ela, gosto dela, acredito nela. Sou contra todo tipo de preconceito, acho preconceito "uó", o fim do mundo, nosso grande pecado.

Acredito que valha a pena ver, para ver um filme sobre complexidade. Eu gosto de complexidade, não gosto de jogo de damas.

G1 – Você escreveu que foram 'violentos ataques'. Estava falando em ataques ao filme ou ataques a você?

Daniela Thomas – Era um debate, e tinha umas regras. As regras eram uma lista num caderno da moderadora. Depois da terceira pergunta, essa lista foi abandonada, o microfone passou para quem estava berrando mais, as perguntas demoravam dez minutos e eram uma série de imprecações, ofensas, assim: "Seu filme é isso e aquilo, sua burguesa...". E eu tinha que tentar responder, e toda vez em que eu respondia tinha interjeições de desagrado, reclamações.

Depois me falaram – e isso é uma coisa muito importante que eu aprendi – que é um típico debate de universidade hoje em dia. E que eu sou muito desinformada (risos). Quando contei para uns amigos lá Rio, eles falaram: "Nossa, Daniela, quanto tempo faz que você não vai numa universidade?". É isso, entendeu?

"A pessoa fala, outra berra, tentam calar a boca fazendo barulho, xingando... Faz parte, tem um jogo rolando de debate que tem essa violência, mas é natural. Eu é que estava despreparada."

A atriz Sandra Corveloni (à direita) em cena de 'Vazante', de Daniela Thomas (Foto: Ricardo Teles/Divulgação) A atriz Sandra Corveloni (à direita) em cena de 'Vazante', de Daniela Thomas (Foto: Ricardo Teles/Divulgação)

A atriz Sandra Corveloni (à direita) em cena de 'Vazante', de Daniela Thomas (Foto: Ricardo Teles/Divulgação)

G1 – Uma expressão recorrente nesses debates é 'lugar de fala'. Isso estava na sua cabeça?

Daniela Thomas – Eu nunca tinha ouvido falar... Sou ignorante, desculpa. Eu nunca tinha ouvido falar de "lugar de fala" até o debate. Uma das coisas que aconteceu foi que falei assim: "O clichê lugar de fala". Algumas pessoas ficaram ofendidíssimas com a ideia de que lugar de fala seja um clichê. Mas, quando você repete uma expressão muitas vezes, ela tende a se transformar num jargão, num clichê.

"Acho que lugar de fala, como projeto, leva ao 'filme selfie', sabe? Não acho que é um bom caminho a se trilhar."

O lugar de fala é a praça pública. Somos todos, falando em nome de todos, para o bem de todos, fazendo um futuro – esse é o meu sonho.

"Não quero ficar falando sozinha. Não quero me apartar de pessoas que amo porque a gente não tem a mesma cor e não está falando exatamente do mesmo lugar. Tem alguma coisa errada. Não curto 'lugar de fala'."

E o "filme selfie"... Fiquei imaginando todo mundo filmando a sua própria... Senta numa mesa e não pode nem filmar os outros, porque vai que possa ofender o meu vizinho, né? Vamos fazer "filmes selfies". Estamos caminhando rapidamente nessa direção.

G1 – Depois desse tempo, você agora tem outro entendimento da polêmica no festival de Brasília?

Daniela Thomas – Sou uma menina que nasceu e foi criada na ditadura. Passei grande parte da minha vida no movimento estudantil. Sei exatamente o que é esse fervor de crença, da necessidade de fazer grandes transformações imediatamente. Isso agora no calor do fogo, no caldeirão das mídias sociais. Um filme cai muito mal nesse lugar. Um filme deseja um outro tipo de olhar para ele, está em outro lugar.

"Não é que não é político, porque já falei isso: não existe filme apolítico. Mas o filme não é militante, não está a serviço de uma causa. Não é um filme de causa alguma, a não ser a causa de olhar para trás."

Cena do filme 'Vazante', de Daniela Thomas (Foto: Ricardo Telles/Divulgação) Cena do filme 'Vazante', de Daniela Thomas (Foto: Ricardo Telles/Divulgação)

Cena do filme 'Vazante', de Daniela Thomas (Foto: Ricardo Telles/Divulgação)

G1 – Você se preocupou em fazer um retrato da escravidão diferente do que se costuma ver no cinema americano?

Daniela Thomas – Considero o retrato da escravidão no cinema americano como uma espécie de cinema de gênero – assim como tem o western, os filmes de terror.

"Os filmes de escravidão americano focam a questão da escravidão na sevícia. Então, tem algo de 'erotizante', de sadomasoquismo que incomoda muito. Faz parecer que a escravidão é uma da psicopatia daquele cidadão."

Para mim, o cinema americano é sempre o mesmo filme, eternamente: "12 anos de escravidão", "Django", voltando para trás, "Birth of a nation", até mesmo aquele "O mordomo". Enfim, uma série de filmes que tem na sevícia ou no sadismo de um branco a questão da escravidão.

Para mim, a escravidão – e meu filme é sobre a escravidão também, mas trata de vários temas da época em que o Brasil era escravocrata – é uma perversão de sistema que faz com que tudo seja violência, todas as relações sejam de violências.

"Quando você considera que um ser humano é menos valioso que outro, você estraga tudo, todas as relações. E, de alguma forma, eu quis traduzir isso em cinema."

Cena do filme 'Vazante', de Daniela Thomas (Foto: Ricardo Telles/Divulgação) Cena do filme 'Vazante', de Daniela Thomas (Foto: Ricardo Telles/Divulgação)

Cena do filme 'Vazante', de Daniela Thomas (Foto: Ricardo Telles/Divulgação)

G1 – Se o filme não é sobre escravidão apenas, quais os outros temas?

Daniela Thomas – Temos a nossa feijoada, a nossa sopa primal do Brasil. Que é:

  1. Exploração extrativista (a ideia de que "vamos tirar tudo daqui", ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, o que já cria problemas sociais);
  2. Patriarcalismo (essa ideia incrível de que o homem tem poder sobre todos os outros seres);
  3. E o escravagismo.

E aqui [no filme], no microcosmo de uma casa grande decadente, eu quis contar essa história e falar dessa sopa perversa onde o país foi gestado.

G1 – A violência contra a mulher, o estupro também é assunto do filme.

Daniela Thomas – Que é básica, né? O que está sendo cozinhado ali nessa sopa? A ideia de que um homem pode ter relações sexuais com uma menina de 12 anos. Isso é inacreditável – que seja da ordem da lei: ele se casa na frente de um padre, assina um contrato.

"Era bem comum homens de 60 anos casarem, aqueles homens mais ricos, assentados, então podiam comprar o casamento que quisessem. Isso aconteceu até algumas atrás no Brasil."

Cena do filme 'Vazante', de Daniela Thomas (Foto: Inti Briones/Divulgação) Cena do filme 'Vazante', de Daniela Thomas (Foto: Inti Briones/Divulgação)

Cena do filme 'Vazante', de Daniela Thomas (Foto: Inti Briones/Divulgação)

Sandra Corveloni fala sobre o filme 'Vazante

Sandra Corveloni fala sobre o filme 'Vazante'

 

 

 

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