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Maria Valéria Rezende vence o Prêmio São Paulo de Literatura 2017

Única mulher finalista, autora de Outros cantos vai receber R$ 200 mil na maior premiação literária em dinheiro do país, entregue nesta segunda-feira 6 .

 

Quando chegou à cerimônia de entrega do Prêmio São Paulo de Literatura de 2017, nesta segunda-feira (6), Maria Valéria Rezende estava, como ela mesma disse, preparando sua "cara de paisagem" para "pagar mico" e aplaudir enquanto outro finalista recebia o título de Melhor Romance do Ano.

Única mulher e a segunda pessoa mais velha indicada, ela achava que figurava entre os dez indicados apenas para cumprir cotas de diversidade. Quando saiu de lá, porém, seu romance "Outros cantos" (Alfaguara) havia se tornado o grande vencedor da noite.

"Eu estou muito surpresa, realmente eu tinha certeza que não seria meu", afirmou ela ao receber o prêmio, que dedicou à escritora Elvira Vigna, morta em julho, aos 69 anos, em decorrência de um câncer.

A décima edição do prêmio, organizado pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, aconteceu na Biblioteca Parque Villa-Lobos, em São Paulo, e distribuiu um total de R$ 400 mil em três categorias, metade deles ao Melhor Livro do Ano.

Os premiados nas categorias Melhor Livro de Autor Estreante com Mais de 40 anos e Melhor Livro de Autor Estreante com Até 40 anos foram, respectivamente, Franklin Carvalho, com "Céus e terra" (Record) e Maurício de Almeida, com "A instrução da noite" (Rocco). Eles receberam R$ 100 mil cada um. Os três ganhadores ainda participarão da Feira Internacional do Livro em Guadalajara (México).

Maria Valéria Rezende (ao centro), ganhadora do Prêmio São Paulo de Literatura 2017, posa ao lado dos outros dois vencedores: Franklin Carvalho (melhor livro de autor estreante com mais de 40 anos) e Maurício de Almeida (melhor livro de autor estreante com até 40 anos) (Foto: Joca Duarte/Divulgação) Maria Valéria Rezende (ao centro), ganhadora do Prêmio São Paulo de Literatura 2017, posa ao lado dos outros dois vencedores: Franklin Carvalho (melhor livro de autor estreante com mais de 40 anos) e Maurício de Almeida (melhor livro de autor estreante com até 40 anos) (Foto: Joca Duarte/Divulgação)

Maria Valéria Rezende (ao centro), ganhadora do Prêmio São Paulo de Literatura 2017, posa ao lado dos outros dois vencedores: Franklin Carvalho (melhor livro de autor estreante com mais de 40 anos) e Maurício de Almeida (melhor livro de autor estreante com até 40 anos) (Foto: Joca Duarte/Divulgação)

De São Paulo para a Paraíba para São Paulo

A cerimônia foi realizada perto da cidade natal de Valéria, Santos (SP), mas a quase 3 mil quilômetros da casa térrea de muros brancos em uma esquina do Bairro dos Bancários, em João Pessoa, onde ela vive com suas irmãs de congregação desde que Fernando Collor de Mello era presidente do Brasil.

Seu trajeto entre o litoral paulista e o paraibano, porém, incluiu paradas em penitenciárias do Brasil — onde ela ajudou a retirar de trás das grades os escritos de Frei Betto —, gabinetes do Vaticano — onde ela ajudou a preparar a publicação desses escritos —, e o trabalho de educação popular em comunidades do mundo inteiro, incluindo a formação de lideranças e até cursos de como produzir sabão em um Timor Leste recém-destruído pelos indonésios.

Prestes a completar 75 anos, mais de 50 deles como freira da Congregação de Nossa Senhora — Cônegas de Santo Agostinho, Valéria só estreou no mercado literário em 2001, quando já era quase sexagenária.

Mas a nova carreira não a distanciou da atividade de educação e articulação popular que a levou para todos os continentes do mundo, e continua preenchendo quase todas as suas horas do dia — neste ano, ela ainda foi uma das principais organizadoras do Mulherio das Letras, um movimento de mulheres escritoras que começou no Facebook.

Depois de ultrapassar a marca de 5 mil participantes, ele virou um evento físico na Paraíba em outubro, com centenas de participantes e um orçamento de R$ 16 mil, arrecadados em um financiamento coletivo que quase dobrou a meta original.

A 'velha freirinha'

A escritora Maria Valéria Rezende, ganhadora do Prêmio São Paulo de Literatura 2017, na biblioteca em sua casa (Foto: Ana Carolina Moreno/G1) A escritora Maria Valéria Rezende, ganhadora do Prêmio São Paulo de Literatura 2017, na biblioteca em sua casa (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

A escritora Maria Valéria Rezende, ganhadora do Prêmio São Paulo de Literatura 2017, na biblioteca em sua casa (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

A idade avançada em relação aos demais escritores e escritoras da atualidade talvez seja justamente o segredo por trás do êxito literário da "velha freirinha", como ela mesma se descreve. A combinação entre a maturidade e o acúmulo surpreendente de histórias tem rendido uma sequência de obras que vem desbancando favoritos e acumulando prêmios literários há quase uma década.

Em 2009, ela venceu seu primeiro Jabuti, com o segundo lugar na categoria Infantil pela obra "No risco do caracol"; em 2013, o terceiro lugar na categoria Juvenil com "Ouro dentro da cabeça"; em 2015, o primeiro lugar de Romance pelo livro "Quarenta dias", também consagrado como o Livro do Ano de Ficção.

Antes de vencer o Prêmio São Paulo de Literatura, seu "Outros cantos", um livro em que os leitores viajam a lugares aparentemente tão díspares como o Sertão, o México e a Argélia, transportados pela memória da protagonista Maria, venceu o terceiro lugar na categoria Romance do Jabuti, anunciado em outubro deste ano, meses depois de levar o Prêmio Casa de las Américas, escolhido o melhor entre os romances brasileiros.

Estilo sem estilo

Maria Valéria Rezente antes de embarcar para participar da cerimônia do Prêmio São Paulo de Literatura 2017 (Foto: Ana Carolina Moreno/G1) Maria Valéria Rezente antes de embarcar para participar da cerimônia do Prêmio São Paulo de Literatura 2017 (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

Maria Valéria Rezente antes de embarcar para participar da cerimônia do Prêmio São Paulo de Literatura 2017 (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

Na noite de quinta-feira (2), enquanto jantava um caldo verde regado com suco de abacaxi com hortelã, seu pedido habitual na Budega, casa noturna a poucas quadras de sua casa em João Pessoa, Valéria, em um vestido preto de flores vermelhas, brincos de pérola e um cigarro apagado entre os dedos, tentava resumir seu trabalho literário.

"Eu não tenho estilo, escrevo no estilo dos meus personagens."

Na vida real, porém, sua personalidade segue o mesmo ritmo fluído e intimista de seus narradores em primeira pessoa. A contação recheada de jargões informais costura e remenda histórias umas nas outras com doses de humor jovial que prolongam qualquer conversa.

Apesar da abertura que a escritora-educadora dá aos interlocutores, conhecidos ou não, conversar com ela implica vê-la em pleno malabarismo com as frequentes interrupções para saudar atenciosamente funcionários e frequentadores do local.

Naquela noite, além de prometer rezar na hora em que um dos garçons faria o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), na tarde de domingo (5), ela ainda conseguiu prestar atenção nos poemas que a dupla Bira de Assis e João Linhares declamava no palco, com direito a recitar junto, em voz baixa, versos de Fernando Pessoa e Vinicius de Moraes decorados há décadas, e esticar a mesa para fazer caber velhos amigos e outros expoentes de João Pessoa, cidade que ela descreve como "a maior taxa de talento per capita" do Brasil.

Mar de histórias sertanejas

Maria Valéria Rezente, no avião, antes da cerimônia em que venceria o Prêmio São Paulo de Literatura 2017 (Foto: Ana Carolina Moreno/G1) Maria Valéria Rezente, no avião, antes da cerimônia em que venceria o Prêmio São Paulo de Literatura 2017 (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

Maria Valéria Rezente, no avião, antes da cerimônia em que venceria o Prêmio São Paulo de Literatura 2017 (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

Um deles é José Barbosa, um cineasta paraense calvo e de sorriso largo. Ex-aluno que a conheceu em Guarabira (PB) na década de 1980, quando ainda era adolescente, Barbosa foi primeiro seu aluno, e depois se tornou seu colega na realização de diversos produtos audiovisuais de formação dos trabalhadores de campo — incluindo o documentário "Bagaço da cana" e radionovelas inspiradas na luta agrária. "Eu fazia a sonoplastia", relembrou ela, mostrando com os braços os movimentos que imitavam o barulho de água.

As lembranças da vida real encontram a autora por onde ela passa, mas também são carregadas no colo pela ficção de sua obra.

A personagem Maria, de "Outros cantos", apesar de ficcional, não é muito diferente da própria Maria Valéria e da sua dedicação à educação de pessoas necessitadas nos rincões do planeta. Já Marílio, o narrador de "Ouro dentro da cabeça", é a extensão de um personagem de uma das obras anteriores da autora, que, segundo ela, ganhou o seu próprio monólogo em busca da oportunidade de aprender a ler e a escrever depois da demanda de um professor de jovens e adultos. "Ele disse: 'esse personagem são os próprios alunos de EJA"', contou ela.

As pessoas de carne e osso a inspiram desde seus primeiros contos, especialmente as com quem ela conviveu no sertão paraibano, no fim da década de 1970, ao voltar do Brasil depois de um exílio. Também por isso, o principal agradecimento de seu discurso nesta segunda foi destinado a elas.

"Quero agradecer especialmente aos meus personagens, porque essas histórias... Eu não tenho uma musa. Essas histórias eu fui recolhendo ao longo da vida de pessoas comuns, invisíveis às vezes, que foram contando, ou que foram permitindo que eu as observasse e que eu convivesse com elas."

Viver no interior do Nordeste, segundo ela explicou em sua participação na 15ª Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), em julho, foi a solução encontrada por sua congregação para que ela retornasse ao Brasil sem se expor em demasia durante a ditadura.

Desde então, seu baú de contos e histórias só aumenta. Apesar dos diversos livros que ela já publicou, Valéria explica que sua produção como contadora de histórias segue ativa, principalmente por causa do Clube de Conto que ela ajuda a organizar há 13 anos na Paraíba.

Idade e memória

Maria Valéria Rezende, ganhadora do Prêmio São Paulo de Literatura 2017, ri na biblioteca de casa (Foto: Ana Carolina Moreno/G1) Maria Valéria Rezende, ganhadora do Prêmio São Paulo de Literatura 2017, ri na biblioteca de casa (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

Maria Valéria Rezende, ganhadora do Prêmio São Paulo de Literatura 2017, ri na biblioteca de casa (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

A boa memória para recontar histórias vividas e adaptá-las à literatura Valéria vem praticando desde que aprendeu a ler. "Eu ia lendo as palavras e só depois de ver várias vezes a mesma palavra no texto eu procurava o significado no dicionário, foi assim que comecei", explicou a autora na manhã de sábado (4), depois de deixar sua casa e a vasta biblioteca de livros — muitos deles comprados em sua juventude porque eram os mais compridos e duravam mais tempo nas missões no interior —, e antes de embarcar no voo rumo à capital paulista para a cerimônia do prêmio.

Os três quartos de século, porém, agora impõem novos desafios na vida de Maria Valéria Rezende, como a vista cansada. Sem poder fazer a cirurgia de catarata em um dos olhos, ela diz que precisou negociar com seus médicos para garantir duas horas diárias para a leitura. Além disso, garante ter direito a fumar um número de cigarros para evitar que a ansiedade eleve sua pressão.

Entre as adaptações para remediar os sinais da idade estão a enorme fonte do leitor de livros digitais que ela leva a tiracolo no voo. As conversas pelo Facebook são recheadas de emojis porque eles exigem menos digitação. E, em viagens como essa, sua suas irmãs — não as da congregação, mas suas quatro biológicas, todas mais novas — fazem questão de buscá-la no aeroporto.

Uma assistente se encarrega de tarefas burocráticas como o check-in dos voos. "Tem uma bibliotecária que faz mestrado em ciências da informação e está me ajudando a organizar as minhas coisas", diz a autora.

Até pelo menos a semana passada, antes da divulgação do prêmio, ela ainda pensava em organizar um bazar no fim do ano para vender parte de seus milhares de livros, juntar dinheiro para manter a casa da congregação e seguir escrevendo e viajando para os eventos literários.

 

 

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