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Autor de HQ inspirada no césio-137 fala sobre preconceito enfrentado por goianos vistos como '''caipiras radioativos'''

Ronaldo Zaharijs, de 31 anos, conta que acidente radiológico, ocorrido em Goiânia há 30 anos, era tratado como tabu na escola onde estudava, e isso o inspirou a escrever a história.

 
 -  Ronaldo Zaharijs fala sobre criação de HQ inspirada no césio-137  Foto: Murillo Velasco/G1
Ronaldo Zaharijs fala sobre criação de HQ inspirada no césio-137 Foto: Murillo Velasco/G1

O escritor goiano Ronaldo Zaharijs, de 31 anos, autor do livro em quadrinhos que faz uma sátira à realidade de Goiânia após o acidente com o césio-137, disse ao G1 que a história relembra o preconceito vivido por goianos na década de 1980. Ronaldo contou que o assunto era tratado como “tabu” durante a adolescência dele na escola, fato que o levou a pesquisar e escrever sobre o caso.

O G1 Goiás publica uma série de reportagens especiais sobre os 30 anos do acidente com o césio-137 em Goiânia.

“A ideia surgiu há pelo menos 15 anos, desde a época da escola. Foi um assunto que sempre me despertou muito interesse, porque poucas pessoas falavam, era considerado um tabu. Primeiro, comecei escrevendo do césio, transformando as pessoas em zumbi. Depois, fui amadurecendo a história”.

“Criei os caipiras mutantes radioativos, que foi uma forma que eu encontrei de ilustrar a forma como as pessoas de outros estados nos enxergavam, como pessoas perigosas, que podiam contaminar outras pessoas”, disse Ronaldo.

O livro foi lançado no dia 13 de janeiro deste ano, na loja de histórias em quadrinhos dele, no Setor Bueno, em Goiânia. São 42 páginas com ilustrações em preto e branco, feitas por Eduardo Menna e Rodrigo Spiga, idealizador da capa.

Ronaldo tinha apenas um ano de idade quando o acidente aconteceu, no dia 13 de setembro de 1987. A tragédia começou quando dois jovens catadores de materiais recicláveis abriram um aparelho de radioterapia em um prédio público abandonado no Centro de Goiânia. Eles pensavam em retirar o chumbo e o metal para vender, e ignoraram que dentro do equipamento havia uma cápsula contendo césio-137, um metal altamente radioativo.

Segundo o Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro Oeste (CRCN-CO), das 112 mil pessoas examinadas na época do fato, 249 tiveram algum tipo de contaminação e quatro morreram. A contaminação atingiu ainda 45 locais públicos e demandou monitoramento de mais de 2 mil km de malha viária.

Ronaldo Zaharijs fala sobre criação de HQ inspirada no césio-137 (Foto: Murillo Velasco/G1) Ronaldo Zaharijs fala sobre criação de HQ inspirada no césio-137 (Foto: Murillo Velasco/G1)

Ronaldo Zaharijs fala sobre criação de HQ inspirada no césio-137 (Foto: Murillo Velasco/G1)

Aventura na ficção

De acordo com Ronaldo, o livro trata de uma história de terror dos anos 1980, adaptada à linguagem e cultura do povo goiano. O enredo começa quando um grupo de jovens viaja para Abadia de Goiás, na Região Metropolitana de Goiânia, local onde estão enterrados os rejeitos do acidente.

Segundo o autor, o objetivo do grupo era se divertir, mas os jovens acabaram surpreendidos por seres “mutantes caipiras radioativos”. A história promete sensualidade e personagens que, segundo ele, é possível amar e odiar.

“Os personagens são bem estereotipados. Sem saber do césio-137, eles viajam para a cidade onde estão enterrados os rejeitos contaminados após o acidente e começam a acontecer coisas e surgir seres que os amedrontam”, contou.

Os principais personagens da história são: Aline, de 20 anos, a mocinha taxada como “a patricinha da cidade”; Jaqueline, de 22 anos, que está prestes a se casar com Tiago, de 25, o típico herói de filmes de ação; Sérgio, de 22, que se auto intitula o maduro e experiente sexual da turma; Miguel, de 21 anos, que é sustentado pela avó; Cíntia, de 19 anos, a mais nova do grupo, deslocada e sem saber o que faz entre os amigos.

O grupo de amigos viaja para a fazenda da família de Sérgio, em Abadia de Goiás, quando, ainda na estrada, eles começam a notar a presença de seres estranhos. Durante a primeira noite dormindo na casa, Jaqueline se assusta com um grito, e parte do grupo sai da casa para investigar de onde partia o ruído.

De repente, descobrem os zumbis, também conhecidos como caipiras mutantes radioativos, que são combatidos pelo herói, Tiago. A partir daí, eles começam uma aventura pela cidade e pela história do acidente radiológico de Goiânia.

“Estes caipiras mutantes são o estereótipo do que era o goiano para grande parte dos moradores de outros estados. Fomos personificados em zumbis perigosos, que transmitiam radioatividade. A história é um terror, uma aventura e uma forma de trazer o assunto à tona”, ressaltou o escritor.

Revista 137 tem 42 páginas de quadrinhos em preto e branco, em Goiás (Foto: Reprodução/137) Revista 137 tem 42 páginas de quadrinhos em preto e branco, em Goiás (Foto: Reprodução/137)

Revista 137 tem 42 páginas de quadrinhos em preto e branco, em Goiás (Foto: Reprodução/137)

Ilustrações

As ilustrações dos quadrinhos foram feitas, em sua maioria, pelo desenhista Eduardo Menna. Ronaldo conta que ele foi convidado para participar do projeto depois que o cartunista Rodrigo Spiga, que estava escalado para desenhar o livro e já tinha feito a capa e algumas figuras, teve um problema na mão.

"Infelizmente, o Rodrigo teve este problema e não podia escrever. Nós tínhamos um prazo para entregar o material e o Eduardo veio de encontro ao projeto, para fazer a ilustração do enredo. A capa ficou por conta do Spiga, que também tem uma galeria ao fim do livro", contou.

Em entrevista ao G1, Rodrigo Spiga, de 22 anos, contou que estava dedicado a fazer os desenhos do livro, quando teve uma tendinite, um desgaste na articulação, que o impediu de fazer o trabalho.

"Era uma coisa que eu queria muito participar. Ronaldo me deu a liberdade para fazer o cenário, os personagens. Estava tudo certo, mas tive este problema. Foi legal ter a capa e a galeria presentes neste livro, que foi tão bem elaborado. Fazer quadrinhos era um sonho, que tive a oportunidade de realizar de certa forma", disse Spiga.

O desenhista revelou que o trabalho também foi uma oportunidade dele conhecer mais sobre o acidente com o césio-137 que, segundo ele, era um assunto "abafado" na infância.

“O que a gente via na escola era muito pouco, e eu suspeito que era pra abafar tudo o que aconteceu. Até hoje, a gente vê muito pouco. Tudo que eu sei eu sei porque eu pesquisei saber, entender. Fora isso, eu talvez não tivesse conhecimento do que foi esse acidente com o césio”, acredita.

Desenhos foram feitos por Edu Menna e Rodrigo Spiga (Foto: Murillo Velasco/G1) Desenhos foram feitos por Edu Menna e Rodrigo Spiga (Foto: Murillo Velasco/G1)

Desenhos foram feitos por Edu Menna e Rodrigo Spiga (Foto: Murillo Velasco/G1)

Vítimas do césio-137

Apesar de o aparelho pesar cerca de 100 kg, a dupla de catadores que encontrou o equipamento resolveu levar para a casa de um deles, no Centro. Já no primeiro dia de contato com o material, ambos começaram a apresentar sintomas de contaminação radioativa, como tonturas, náuseas e vômitos. Inicialmente, não associaram o mal-estar ao césio-137, e sim à alimentação.

Depois de cinco dias, o equipamento foi vendido para Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho localizado no Setor Aeroporto, também na região central da cidade. Neste local, a cápsula foi aberta e, à noite, Devair constatou que o material tinha um brilho azul intenso e levou o material para dentro de casa.

Devair, sua esposa Maria Gabriela Ferreira e outros membros de sua família também começaram a apresentar sintomas de contaminação radioativa, sem fazer ideia do que tinham em casa. Ele continuava fascinado pelo brilho do material. Entre os dias 19 e 26 de setembro, a cápsula com o césio foi mostrada para várias pessoas que passaram pelo ferro-velho e também pela casa da família.

A primeira vítima fatal do acidente radiológico foi a garota Leide das Neves Ferreira, de 6 anos. Ela se tornou o símbolo dessa tragédia e morreu depois de se encantar com o pó radioativo que brilhava durante a noite. A menina ainda fez um lanche depois de brincar com a novidade, acabou ingerindo, acidentalmente, partículas do pó misturadas ao alimento.

O acidente fez centenas de vítimas, no entanto, o Governo de Goiás e as autoridades envolvidas só assumiram quatro mortes, ocorridas pouco depois do acidente, incluindo o caso da menina.

No âmbito radioativo, o acidente com césio-137 só não foi maior que o registrado na usina nuclear de Chernobyl, em 1986, na Ucrânia, segundo a Cnen. Cerca de 6 mil toneladas de lixo radioativo foram recolhidas na capital goiana e levada para Abadia de Goiás, onde permanece até os dias atuais.

Passadas quase três décadas, os resíduos já perderam metade da radiação. No entanto, o risco completo de radiação só deve desaparecer em pelo menos 275 anos.

Equipamento de radiologia onde foi encontrada a cápsula do Césio-137 (Foto: Divulgação/Cnen) Equipamento de radiologia onde foi encontrada a cápsula do Césio-137 (Foto: Divulgação/Cnen)

Equipamento de radiologia onde foi encontrada a cápsula do Césio-137 (Foto: Divulgação/Cnen)

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