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'''Música para quando as luzes se apagam''' mistura real e ficção no Festival de Brasília; leia entrevista

Filme de Ismael Caneppele mostra cotidiano de jovem trans no interior do Rio Grande do Sul; roteiro se funde à realidade da família, mediado por Júlia Lemmertz. Mostra competitiva tem 9 longas e 12 curtas.

 
 -  Emelyn Fischer em cena de  Música para quando as luzes se apagam , de Ismael Caneppele  Foto: Zeppelin Filmes/Divulgação
Emelyn Fischer em cena de Música para quando as luzes se apagam , de Ismael Caneppele Foto: Zeppelin Filmes/Divulgação

São tantas camadas de realidade e ficção, sobrepostas, que a classificação como "documentário" parece arbitrária. Em "Música para quando as luzes se apagam", de Ismael Caneppele, páginas de um diário viraram livro, que viraram filme, que virou reality show, vivência e encenação.

O longa-metragem é uma das atrações deste sábado (16) da mostra competitiva do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro – a sessão começa às 19h, no Cine Brasília. Acompanhado dos curtas "O peixe" (Jonathas de Andrade, 23 min, PE) e "Nada" (Gabriel Martins, 27 min, MG), o filme também será exibido em outras três regiões do DF, no mesmo horário (veja serviço no fim da matéria).

Em entrevista ao G1, Caneppele falou sobre a estreia na direção, e sobre as semelhanças e diferenças em relação ao projeto mais famoso da carreira, "Os famosos e os duendes da morte" (Esmir Filho, 2013).

"No 'Famosos', eu fui ator, roteirista, câmera, foi meio que uma escola. Aí, quando fiz o 'Música', foi outro processo. Treze meses de filmagem, sem roteiro algum, um processo quase inverso. O que eu tinha aprendido com 'Famosos', de estruturar o roteiro, aqui foi no sentido de desapegar", afirma.

Cena do filme 'Música para quando as luzes se apagam', de Ismael Caneppele (Foto: Zeppelin Filmes/Divulgação) Cena do filme 'Música para quando as luzes se apagam', de Ismael Caneppele (Foto: Zeppelin Filmes/Divulgação)

Cena do filme 'Música para quando as luzes se apagam', de Ismael Caneppele (Foto: Zeppelin Filmes/Divulgação)

"Música para quando as luzes se apagam" acompanha a história de Emelyn (Emelyn Fischer), uma menina do interior do Rio Grande do Sul em fase de transição para uma identidade masculina, de nome Bernardo. O processo é acompanhado, em cena, pela família de Emelyn e por uma autora sem nome (Júlia Lemmertz), que chega à cidade para transformar a história da jovem em filme.

Contando assim, a narrativa parece um pouco confusa. E é mesmo. Na entrevista ao G1, Ismael Caneppele gastou alguns minutos para explicar todas as conexões entre o mundo real e a ficção documentada pelas câmeras – e mais alguns para defender a classificação do filme como "documentário".

"Olha, a gente estava sempre lembrando, no decorrer da narrativa, que aquilo era um filme, que a Júlia era uma atriz, que uma câmera estava posicionada. Mesmo que não fosse um documentário convencional, de pessoas olhando para a câmera", diz.

"Há momentos em que vira meio reality show. A gente com três câmeras, e os atores vivendo a vida real por horas a fio. A Júlia chega no aeroporto, já é 'microfonada' no saguão, dirige até a casa da personagem sob o olhar da câmera."

MAIS: Confira a programação completa do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Roteiro em camadas

A narrativa surgiu de páginas soltas de um diário rasgado, entregues a Caneppele por uma jovem que ele não conhecia. O escritor reorganizou os trechos, completou as lacunas e escreveu o livro "Música para quando as luzes se apagam", em 2007.

Com o gênero trocado, a autora do diário virou o personagem Bernardo. Como todos os outros envolvidos tiveram o gênero mantido, a narrativa amorosa virou um romance gay adolescente. Quando surgiu a ideia de converter o livro em roteiro, Caneppele juntou os equipamentos, a equipe, e partiu para o interior do Rio Grande do Sul.

Cena de 'Música para quando as luzes se apagam', de Ismael Caneppele (Foto: Zeppelin Filmes/Divulgação) Cena de 'Música para quando as luzes se apagam', de Ismael Caneppele (Foto: Zeppelin Filmes/Divulgação)

Cena de 'Música para quando as luzes se apagam', de Ismael Caneppele (Foto: Zeppelin Filmes/Divulgação)

Segundo o diretor, o filme tem a mesma paisagem geográfica do livro, e os mesmos detalhes dos personagens. O encontro com Emelyn Fischer foi casual e, adicionando mais uma camada ao roteiro, transformou Bernardo em uma personagem trans e lésbica.

"A gente estava na cidade, filmando paisagens por onde o livro passava, e a Emelyn passou ao fundo. Na hora, quando vi aquela figura e achei que era um menino, pedi para a produtora abordar e marcar uma entrevista. A gente conversou, me apaixonei, e começamos a filmar naquele momento. De maio de 2015, até meados de 2016", conta.

"Meu primeiro encontro com a Emelyn já foi rodeado por câmeras, toda a nossa relação com eles foi filmada. Desde ir morar com a família dela, a Júlia Lemmertz ir trabalhar com a mãe dela, como enfermeira de hospital."

Ao mesmo tempo em que acompanhava a rotina de Emelyn, Ismael Caneppele incluía pequenas passagens do roteiro para que ela e as pessoas em redor interpretassem. Mesmo a adição da personagem de Júlia Lemmertz, que não estava prevista no início, é usada para acessar camadas mais profundas da realidade daquele cotidiano.

"Eu estava filmando, mas eu era um homem ali naquele espaço, um corpo estranho. A gente precisava acessar o mundo íntimo da Emelyn. Aí, criei essa ficção de que a Júlia viria para interpretar a mãe da Emelyn, e nessa interpretação, ela acaba acessando os afetos daquela família."

Júlia Lemmertz em cena de 'Música para quando as luzes se apagam', de Ismael Caneppele (Foto: Zeppelin Filmes/Divulgação) Júlia Lemmertz em cena de 'Música para quando as luzes se apagam', de Ismael Caneppele (Foto: Zeppelin Filmes/Divulgação)

Júlia Lemmertz em cena de 'Música para quando as luzes se apagam', de Ismael Caneppele (Foto: Zeppelin Filmes/Divulgação)

Processo tortuoso

Ao longo de 13 meses, o projeto de "Música para quando as luzes se apagam" envolveu mais de 200 pessoas e capturou 300 horas de material. Todo esse trabalho se resumiu, no corte final, a 70 minutos de projeção.

O arquivo bruto passou por uma primeira triagem e, em seguida, foi entregue às mãos do montador Germano de Oliveira, de 27 anos – apontado pelo diretor como "uma grande promessa". Após testar dezenas de trilhas sonoras, a equipe optou por retirar a música e ambientar as cenas com o silêncio. Nem mesmo "Music when the lights go out" da banda Libertines, que dá nome ao filme, passou no corte final.

"A única música que toca é 'Sonata ao luar', de Beethoven. Não tem rockzinho igual no 'Famosos', é bem silencioso. A música vinha muito para sublinhar a imagem mas, no final, descobri que o silêncio ficava mais forte. A sonata, a Júlia vinha estudando pro filme. Então, a gente documenta ela estudando, tentando tirar ao piano, e é só por isso que está lá."

Fora dos padrões

Questionado sobre a militância envolvida em um filme sobre transexualidade, Caneppele diz que o filme ganhou uma "urgência inesperada" nas últimas semanas – quando mostras artísticas com temas sexuais foram canceladas, e quadros foram confiscados após denúncia de movimentos conservadores.

"Quando a gente acha que o assunto tá batido, tá na televisão, sendo explicado, vem tudo isso. A gente vê a importância de falar da cultura queer, mostrar esse antagonismo em relação ao corpo trans. Um corpo que é assassinado, aqui no Brasil."

Emelyn Fischer em cena de 'Música para quando as luzes se apagam', de Ismael Caneppele (Foto: Zeppelin Filmes/Divulgação) Emelyn Fischer em cena de 'Música para quando as luzes se apagam', de Ismael Caneppele (Foto: Zeppelin Filmes/Divulgação)

Emelyn Fischer em cena de 'Música para quando as luzes se apagam', de Ismael Caneppele (Foto: Zeppelin Filmes/Divulgação)

Nesse ponto, a intenção política do diretor esbarrou em uma "notícia boa e ruim": a transexualidade e a homossexualidade de Emelyn, mesmo naquele contexto de cidade do interior, não tinha nada de dilema. "Cheguei a pensar que não tinha história, não tinha conflito", confessa Caneppele.

"A Emelyn não tem vilões, antagonistas que a gente costuma ver. O irmão dela também é trans, e a relação com avós, primos, vizinhos, é tudo muito solar. Foi essa corda bamba, tratar de um tema que mata e, ao mesmo tempo, retratar a realidade de uma pessoa que não passa por isso."

Veja a programação da Mostra Competitiva, neste sábado (16):

19h: Cine Brasília | Teatro da Praça | Taguatinga, Espaço Semente | Setor Central – Gama, Teatro de Sobradinho | Riacho Fundo em frente à Administração
"O peixe", Jonathas de Andrade, 2016, 23min, PE, Livre
"Nada", Gabriel Martins, 2017, 27min, MG, Livre
"Música para quando as luzes se apagam", Ismael Caneppele, 2017, 70min, RS, 14 anos

21h: Teatro da Praça | Taguatinga, Espaço Semente | Setor Central – Gama, Teatro de Sobradinho | Riacho Fundo em frente à Administração
21h30:
Cine Brasília
"Peripatético", Jéssica Queiroz, 2017, 15min, SP, Livre
"Vazante", Daniela Thomas, 2017, 116 min, SP, 14 anos

50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

De 15 a 24 de setembro

Locais: Cine Brasília (106/107 Sul), Museu da República (Setor Cultural Sul, lote 2), Meliá Brasil 21 (SHS Quadra 6), Teatro da Praça de Taguatinga (St. Central AE 5, próximo à Praça do Relógio), Espaço Semente (Setor Central do Gama, Entrequadras 52/54), Teatro de Sobradinho (A?rea Especial, Q 12, próximo à rodoviária) e administração regional do Riacho Fundo (Área Central 3, Lote 6).

Preços: R$ 6 (meia-entrada para a Mostra Competitiva, no Cine Brasília); entrada franca para as outras exibições. Algumas atividades requerem inscrição prévia pela web.

 

 

 

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